O Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp, em Campinas (SP), enfrenta uma fila de aproximadamente 2 mil pacientes aguardando cirurgias ortopédicas. Desses, cerca de 1 mil estão cadastrados para procedimentos eletivos, e o tempo de espera pode chegar a cinco anos. A unidade é a principal referência do Sistema Único de Saúde (SUS) na região.
Fila na rede municipal também é crítica
Na rede municipal de Campinas, ao menos 4.622 pessoas aguardam por cirurgias ortopédicas, algumas desde 2014, conforme dados do Ministério Público de São Paulo (MPSP). A situação reflete um problema estrutural na saúde pública da região.
Pacientes relatam dor e incerteza
Ubiraci Rodrigues Moledo, de 64 anos, morador de Indaiatuba (SP), perdeu a cartilagem do joelho esquerdo e necessita de prótese. “Começou devagarzinho. Agora chegou numa situação que não tem o que fazer. Só uma prótese. Eu não posso carregar peso. Se eu fico muito parado dói, se eu levanto dói, se eu ando dói. É difícil”, lamentou em entrevista à EPTV, afiliada da TV Globo.
Cristiana Munhoz vive situação semelhante desde 2023, quando uma ressonância magnética apontou rompimento do menisco e de um ligamento do joelho. “Passo com o ortopedista a cada seis meses. Como ele não tem acesso, porque é estadual, não tem acesso à agenda [do HC]”.
O que explica a demora?
O superintendente do HC da Unicamp, Maurício Etchebehere, explica que a área concentra filas extensas devido ao envelhecimento da população e à alta demanda do pronto-socorro. “A gente recebe muitos pacientes politraumatizados, a maior parte vítima de acidentes com moto, que ocupam leitos, tanto de enfermaria quanto UTI, e que acabam suspendendo cirurgias eletivas”, afirma.
Etchebehere ressaltou que o governo estadual não tem uma visão oficial dessa fila interna. “A realidade é que o estado não sabe da nossa fila. Ele não tem uma visão oficial da nossa fila. É uma fila que a gente tem por um levantamento interno. Nós precisamos colocar esses pacientes no cadastro de demanda reprimida”. A meta da nova gestão é incluir os pacientes nesse cadastro para conseguir financiamento do estado.
Ações do Hospital de Clínicas
A superintendência do HC informou que tem pactuado com a Secretaria de Estado da Saúde para fortalecer as cirurgias ortopédicas dentro da Tabela SUS Paulista, programa estadual que complementa os repasses federais. “Atualmente, cerca de mil pacientes estão cadastrados para diversas categorias de cirurgias ortopédicas, que sofrem forte impacto diariamente em virtude das urgências e emergência que chegam através da Unidade de Emergência Referenciada (UER)”.
“Cabe ressaltar que essas listas são descentralizadas e o HC atua com a DRS-7 para identificá-las e unificá-las, com o objetivo de ampliar os atendimentos e reduzir a demanda de espera, sempre respeitando os critérios de urgência e emergência”, completou em nota.
Resposta do governo estadual
A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que tem ampliado a oferta de atendimentos na região de Campinas para reduzir as filas do SUS. No último ano, a região do Departamento Regional de Saúde (DRS) de Campinas realizou 115 mil cirurgias eletivas. O estado atingiu o recorde de 3,5 milhões de cirurgias eletivas nos três primeiros anos da atual gestão.
Esse avanço decorre, entre outras medidas, do fortalecimento da Tabela SUS Paulista, que permite que hospitais filantrópicos recebam até cinco vezes mais pelos procedimentos. A iniciativa impulsionou a reativação e abertura de mais de 650 leitos na região. Até março deste ano, mais de R$ 768,5 milhões foram destinados a 104 unidades filantrópicas da região de Campinas.
O Estado também investe em novas unidades. Em Campinas, foi publicado edital de licitação para o novo Hospital Estadual, com investimento estimado em mais de R$ 550 milhões e 400 leitos. Em Várzea Paulista, foram destinados cerca de R$ 45 milhões para equipamentos e mobiliários do Hospital e Maternidade, com inauguração prevista para os próximos dias. Em Santa Bárbara d’Oeste, foi inaugurado o complexo Cidade Saúde. Além disso, está em andamento o credenciamento da Casa de Saúde – Hospital São Leopoldo Mandic para o SUS.
A SES ressaltou que a organização das filas municipais é responsabilidade das prefeituras. Ao Estado compete apoiar tecnicamente, regular o acesso e ampliar a capacidade regional. A pasta trabalha para identificar e unificar as filas descentralizadas, com o objetivo de ampliar os atendimentos e reduzir a espera.



