O psicanalista Sigmund Freud criou teorias que demonstravam que quase nada acontece por acaso — nem sonhos, nem esquecimentos. Mas além de sua habilidade em navegar pelos labirintos da mente humana, Freud era notoriamente cético. Essa característica deu origem a uma afirmação que envelheceu mal: em 1905, no texto “Sobre a Psicoterapia”, ele escreveu que, após os 50 anos, as pessoas já não teriam a “plasticidade dos processos mentais” necessária para colher os ganhos das sessões de terapia. Em outras palavras, quanto mais tarde alguém procurasse um psicólogo, menores seriam as chances de transformação.
Prática clínica contradiz Freud
Mais de um século depois, a prática clínica mostra um cenário bem diferente. Cada vez mais pessoas buscam a terapia justamente em fases mais maduras da vida. Algumas chegam aos 60, outras aos 70, e há quem descubra, aos 80 ou 90 anos, que autoconhecimento não é uma corrida contra o relógio. “Uma prova de que até o pai da psicanálise pode errar”, avalia a psicóloga Dorli Kamkhagi, especialista em gerontologia.
Resistência geracional e tabus
Apesar do movimento crescente, a terapia na terceira idade ainda enfrenta resistência. Segundo a psicóloga Vanessa Santos, especialista em neuropsicologia do envelhecimento, o motivo passa por questões geracionais. “Muitos idosos cresceram numa época em que não havia espaço para falar sobre sofrimento emocional. A lógica era: engole o choro e segue em frente”, observa. O envelhecimento, no entanto, traz perguntas difíceis de ignorar: aposentadoria, mudanças no corpo, perda de amigos e familiares, filhos que seguem seus caminhos. “O envelhecimento pode envolver perdas, solidão, adoecimentos, alterações cognitivas, medo da morte, de depender da família… Além disso, existe o receio de mexer em dores antigas. Muitas pessoas mais velhas carregam histórias de perdas e traumas que nunca contaram a ninguém”, afirma Vanessa.
Elaboração emocional e ressignificação
No consultório, as conversas raramente ficam restritas à razão que levou alguém a buscar apoio. Passado, presente e futuro costumam se entrelaçar. “A terapia nos ajuda a entender quem somos porque abre caminho para compreender quem fomos. E, dessa forma, podemos ressignificar a nossa história, dar novos contornos ao passado e ao futuro”, avalia Dorli. Ela atendeu uma paciente que ilustra bem esse processo: aos 85 anos, a mulher decidiu iniciar a terapia para falar, pela primeira vez, sobre uma relação extraconjugal vivida décadas antes. “Era uma situação presa na garganta havia muitos anos. Esse foi o momento em que ela chegou ao limite, tanto do silêncio quanto da culpa”, conta Dorli. No consultório, a paciente começou a enxergar essa história por outro ângulo, entendendo que, embora estivesse casada, já não vivia aquele relacionamento como desejava, e que aquela relação havia ocupado um lugar importante em sua trajetória. “A psicoterapia abre espaço para que a pessoa se perdoe. Porque eu não sou perfeita, porque eu não fiz tudo maravilhosamente bem… E tudo certo. É um lugar que abre portas para se perdoar dos fantasmas do passado”, diz Dorli.
Desafios do presente e reinvenção
O envelhecimento também traz questões complexas relacionadas ao presente: perdas, morte de pessoas próximas, mudanças simbólicas como deixar uma carreira, transformar o papel dentro da família ou perceber que o corpo já não responde como antes. “Eu não sou mais aquele profissional que eu fui. Então, como eu me reinvento? Como eu continuo tendo uma vida prazerosa e satisfatória em outra fase?”, exemplifica Vanessa. A psicóloga Valmari Cristina Aranha, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), lembra de uma senhora que, aos 74 anos, procurou terapia para lidar com o envelhecimento da mãe, que tinha quase 100 anos. Após encaminhar a situação da mãe, a filha se viu diante de uma nova questão: o que fazer da própria vida agora, depois de perder o papel de cuidadora? “Algumas semanas depois, ela voltou dizendo: ‘Agora quem precisa de terapia sou eu’”, lembra Valmari. “A terapia é um bom lugar para elaborar desejos relacionados ao envelhecimento, inclusive sobre a finitude.”
Neuroplasticidade e prevenção de demências
Se Freud acreditava que a capacidade de transformação diminuía após os 50 anos, a neurociência tem mostrado o contrário. Embora o envelhecimento traga mudanças naturais, o cérebro permanece capaz de aprender, se adaptar e criar novas conexões ao longo da vida. “Mesmo no amadurecimento, nós continuamos tendo neuroplasticidade. Isso significa que seguimos capazes de desenvolver estratégias, reorganizar formas de pensar e lidar com emoções e desafios”, explica Vanessa. A psicoterapia auxilia nesse processo, mobilizando funções como linguagem, memória autobiográfica, planejamento, tomada de decisão, flexibilidade cognitiva e regulação emocional. “Ao revisitar experiências, nomear sentimentos e construir novas formas de enfrentamento, a pessoa não está apenas elaborando sua história, está também ativando redes cerebrais importantes”, afirma Vanessa.
Em outubro de 2024, uma pesquisa liderada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em parceria com outras oito instituições e publicada na revista The Lancet, mostrou que mais da metade dos casos de demência pode ser evitada se 14 fatores de risco forem controlados — entre eles, condições de saúde mental como depressão e isolamento social. “Isso mostra que cuidar da saúde mental também é uma forma de prevenir quadros neurodegenerativos sérios, como o Alzheimer”, diz a neuropsicóloga. Além disso, a terapia ajuda a diferenciar o que faz parte da personalidade do que pode ser sinal de sofrimento emocional ou alterações cognitivas. “Muitas vezes, familiares acreditam que aquela pessoa está mais quieta ou mais ‘difícil’ porque ‘ficou rabugenta’ ou ‘é a idade’, mas nem sempre é tão simples assim”, acrescenta Vanessa. Depressão e ansiedade podem se manifestar de formas diferentes na velhice: em vez de tristeza evidente, podem surgir falta de energia, alterações no sono e no apetite, queixas físicas ou dificuldades de memória e atenção.
Como dar o primeiro passo
Para quem pensa em procurar ajuda psicológica, o primeiro passo pode ser mais simples do que parece. “Hoje, nós temos abordagens muito diferentes”, afirma Valmari. Além das psicoterapias individuais, existem arteterapia, terapia em grupo e diversas técnicas adaptáveis. “O segredo é encontrar qual é a melhor técnica e qual é o melhor profissional para cada pessoa.” Uma boa porta de entrada pode ser conversar com profissionais de saúde já conhecidos, como geriatras, cardiologistas, fisioterapeutas ou nutricionistas, que costumam indicar psicólogos especializados em envelhecimento. Também é possível buscar por meio de entidades como a SBGG. O mais importante, diz Valmari, é entender que a terapia não precisa prometer uma mudança radical de personalidade. Ela pode abrir espaço para novas formas de compreender a própria história, lidar com sofrimentos, melhorar a comunicação e contribuir para uma vida com mais qualidade. “Você olha para trás e nem sempre gosta do que vê. Ao mesmo tempo, percebe que tem menos tempo pela frente do que já viveu. Isso pode desmotivar algumas pessoas, mas também pode ser o ponto de partida para viver esse tempo da melhor forma possível”, finaliza.



