Fisioterapia precoce faz bebê superar prognóstico de não andar nem falar em SP
Fisioterapia precoce faz bebê superar prognóstico em SP

Bebê com múltiplos diagnósticos supera prognóstico com fisioterapia precoce

Quando recebeu alta da UTI neonatal em Santo André, na Grande São Paulo, a bebê Alicia de Jesus Satiro deixou o hospital com uma série de diagnósticos e um prognóstico que preocupava a família. Gemêa e nascida prematura, com 33 semanas de gestação, ela foi diagnosticada com escoliose congênita, plagiocefalia, torcicolo congênito, displasia pulmonar grave e paralisia facial.

Uma semana após a alta, a família iniciou acompanhamento gratuito na Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina, em Itaquera, na Zona Leste de São Paulo, onde passou por um programa de intervenção precoce. Hoje, com 1 ano e 6 meses, a criança realiza marcha independente, apresenta autonomia nas trocas posturais e teve uma evolução importante. A curvatura da coluna causada pela escoliose diminuiu de 18 para 7 graus, a plagiocefalia foi corrigida, o torcicolo foi resolvido e apenas a paralisia facial segue em acompanhamento.

O caso se transformou em um relato científico que será apresentado no III Congresso Internacional de Paralisia Cerebral, no fim de julho, em Campinas, e chama a atenção para a importância da fisioterapia iniciada nos primeiros meses de vida para bebês prematuros e considerados de risco.

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Gestação de alto risco e diagnósticos múltiplos

A mãe de Alicia, Verônica de Jesus, de 31 anos, contou que ainda durante a gestação descobriu que esperava gêmeas em uma gravidez monoamniótica, quando os bebês compartilham a mesma placenta e o mesmo saco amniótico. "Por se tratar de uma gestação rara e de alto risco, a família já sabia que poderia enfrentar complicações", disse Verônica. As gêmeas nasceram prematuras, com 33 semanas. Alicia nasceu com 1,930 kg e permaneceu internada por 70 dias na UTI neonatal. A irmã Laura ficou 203 dias internada.

"Assim que a Alicia nasceu, foi entubada e ficou na UTI. Ela usava respirador e tinha muita queda de saturação. Então, já diagnosticaram o torcicolo congênito", relatou Verônica. Durante a internação, uma fisioterapeuta chamou a atenção para uma alteração na coluna da bebê, identificada em um raio-X realizado no dia do nascimento. "Ela perguntou se eu tinha reparado que a coluna da Alicia tinha uma envergadura. Depois vimos que, desde o dia do nascimento, ela já tinha uma escoliose de 18 graus. Era uma escoliose de má formação." Além da escoliose e do torcicolo, Alicia também é cardiopata, toma remédio para o coração, tem uma comunicação intraventricular e paralisia facial.

Início rápido do tratamento e evolução

Segundo Arthur Pinto dos Santos Junior, fisioterapeuta responsável pelo atendimento da bebê na Clínica-Escola e docente da instituição, a rapidez no início do tratamento foi um dos fatores mais importantes. "Foi questão de uma semana após a alta da UTI neonatal que ela iniciou o acompanhamento conosco", afirmou. O tratamento é baseado em escalas específicas para avaliar o desenvolvimento infantil e direcionar os estímulos. "O cérebro do bebê é muito plástico. Sendo direcionado para o movimento adequado, eles conseguem ter um desenvolvimento típico ou próximo do típico."

Nas primeiras sessões, Alicia já apresentou melhora significativa. "Ela pode melhorar muito rápido, mas também pode piorar muito rápido. Isso depende da qualidade do estímulo que ela recebe", explicou Arthur. Hoje, Alicia anda, corre, sobe e desce escadas e brinca normalmente. A família também aprendeu a dar continuidade aos estímulos em casa. "O Arthur atende as meninas uma vez por semana, mas nós ficamos os outros seis dias com elas. Ele ensina os exercícios para a gente fazer quando ela está dormindo", disse Verônica.

Intervenção precoce e neuroplasticidade

Para a coordenadora do curso de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina, Cássia Santos, o caso demonstra o potencial da intervenção precoce durante o período de maior capacidade de adaptação do cérebro. "A criança sai do hospital com um prognóstico de todos esses agravos, cheia de possibilidades de não andar, de não falar e de evoluir para uma paralisia cerebral. A intervenção precoce, trabalhando a neuroplasticidade, modifica muito esse cenário", afirmou.

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Segundo Cássia, a resposta varia de acordo com cada criança e depende de fatores como o estímulo em casa. "Não há milagre e não há promessas, mas a gente busca devolver esse paciente para o convívio social de maneira produtiva", completou. Arthur complementou: "Com os cuidados neonatais, a sobrevida desses bebês aumentou muito. Cabe a nós proporcionar um tratamento adequado, digno e humanizado."

Atendimento gratuito e de porta aberta

A Clínica-Escola de Fisioterapia da Faculdade Santa Marcelina funciona desde 2014 e oferece atendimento gratuito à população. "A faculdade é filantrópica. Nós temos atendimento de porta aberta. Recebemos pacientes encaminhados por médicos e também pessoas que ouviram falar da clínica e procuram diretamente a recepção", disse Cássia Santos. O atendimento é 100% gratuito e não há obrigatoriedade de ser morador do entorno. No caso dos bebês prematuros, o acolhimento acontece de forma prioritária.

A coordenadora também alerta que as famílias não precisam esperar apenas pelo encaminhamento médico. "Muitos ficam esperando que o médico faça o encaminhamento para nos procurar. Não há essa necessidade." Investir na intervenção precoce também reduz impactos futuros na saúde pública. "Quando ela saiu do hospital, tinha um prognóstico de ser uma criança com deficiência. Hoje passa a demandar dos serviços de saúde exatamente como qualquer outra criança", concluiu Cássia.