O devaneio excessivo, conhecido em inglês como maladaptive daydreaming, é uma condição em que pessoas passam mais da metade do tempo acordadas criando fantasias elaboradas e detalhadas, com narrativas e personagens internos. Em casos extremos, os indivíduos podem sonhar acordados por até 12 horas por dia, segundo o psiquiatra e pesquisador americano Colin Ross. Embora possa parecer inspirador, essa imersão no mundo interior causa graves rupturas na vida cotidiana e sofrimento significativo.
O que é o devaneio excessivo?
Sonhar acordado é uma atividade mental normal: estudos indicam que 30% a 50% dos pensamentos durante a vigília não têm relação com a tarefa atual. Esse processo pode beneficiar a regulação emocional, a empatia e a criatividade, além de reduzir o tédio. No entanto, o devaneio excessivo se torna um transtorno quando 'absorve completamente' a pessoa, causando desconforto e interferindo na capacidade de funcionamento, com características compulsivas, explica Ross.
O professor emérito de psicologia clínica Eli Somer, da Universidade de Haifa, em Israel, cunhou o termo maladaptive daydreaming e pesquisa a condição há mais de duas décadas. Segundo ele, 'o problema surge quando a pessoa não domina mais a fantasia e a fantasia começa a dominar a pessoa'.
Prevalência e fatores de risco
Ross estima que o devaneio excessivo afete de 2% a 4% da população adulta. A condição está associada a traumas de infância, como negligência, abusos emocionais e problemas de apego, além de neurodiversidade. Um estudo com 235 adultos com transtorno do espectro autista revelou que 43% relataram experiências de devaneio excessivo, ligadas à solidão e dificuldades de regulação emocional. Também há conexões com TDAH, TOC, depressão e ansiedade.
Somer destaca que, 'com TDAH, a sobreposição é especialmente importante, pois a fantasia em excesso pode parecer falta de atenção. Com TOC, existem características comuns, como intrusividade, compulsão e dificuldade de interromper comportamentos.' No entanto, ele ressalta que 'as evidências atuais indicam que o devaneio excessivo não pode ser totalmente reduzido a TDAH ou TOC. Ele tem uma fenomenologia distinta, concentrada na fantasia narrativa imersiva, absorção dissociativa e investimento emocional em um mundo interno.'
Impactos na vida cotidiana
O tempo gasto sonhando acordado afasta as pessoas de ocasiões sociais e relacionamentos, gerando isolamento, vergonha e culpa. Kyla Borcherds, que criava 'outros mundos' desde os quatro anos, conta que o devaneio se tornou uma compulsão que durava horas. 'Era simplesmente um desejo muito poderoso, como as pessoas dizem que têm desejo de se encher de chocolate ou de ficar nas redes sociais', relata. Ela percebeu o prejuízo no trabalho: 'Por que eu investiria tempo e energia para tentar ser promovida, se podia ter o mesmo na minha imaginação, instantaneamente e sem esforço, com 95% da satisfação da vida real? Eu ainda estava fazendo trabalhos de nível básico quando tinha mais de 40 anos.'
A psicóloga clínica Wanda Fischera, diretora de pesquisa da Sociedade Internacional de Devaneio Excessivo, explica: 'Imagine o seu programa de TV favorito, mas com você como protagonista. Como você consegue desistir daquilo, se a sua vida atual é menos estimulante?' As pessoas com devaneio excessivo frequentemente têm necessidades emocionais não atendidas e usam as fantasias como substitutas da satisfação real.
Diagnóstico e tratamento
O devaneio excessivo ainda não é reconhecido pelo Manual Estatístico e de Diagnóstico de Transtornos Mentais nem pela Classificação Internacional de Doenças (CID). Não há estudos com grande amostragem sobre sua prevalência, o que impede o estabelecimento de um tratamento padrão baseado em evidências. No entanto, Somer afirma que 'os relatos de casos e estudos iniciais de tratamento indicam que a psicoterapia dirigida pode ajudar, especialmente quando tratar dos gatilhos, imersão compulsiva, controle da atenção, regulação das emoções, esquiva e vergonha.' O objetivo clínico não é eliminar a imaginação, mas restaurar a escolha, flexibilidade e controle sobre ela.
Fischera sugere estratégias antes da terapia: registrar os sonhos diurnos e sua frequência; usar meditação mindfulness para treinar o cérebro; conhecer os gatilhos, como música ou atividades repetitivas, e substituí-los por podcasts ou reduzir o tempo sozinho. 'Tenho uma cliente que conta que não consegue sonhar acordada quando seu gato está no quarto. Por isso, o gato fica sempre no quarto', exemplifica.
Histórias de superação
Maria, que preferiu não revelar o sobrenome, descobriu o devaneio excessivo na idade adulta e sentiu alívio ao saber que não era a única. 'Cresci com a noção de que, talvez, eu fosse esquisita', conta. Ela encontrou na escrita uma forma de canalizar as histórias. Kyla Borcherds, após tratamento para depressão, conseguiu controlar os sonhos diurnos e hoje é moderadora de uma comunidade no Reddit sobre a condição, com 18 mil visitantes semanais. Para quem enfrenta o problema, ela destaca que 'não precisa durar para sempre' e celebra as histórias internas, pois seus personagens 'acreditaram em mim quando eu não acreditei em mim mesma'. 'Ter histórias na sua cabeça não é o problema. A questão é ficar viciada nessas histórias', conclui.



