Dentista influencer Mariana Laranja apaga 164 posts após indiciamento por lesão corporal
Dentista influencer apaga 164 posts após indiciamento

A dentista e influencer Mariana Laranja, que foi indiciada por lesão corporal culposa após realizar procedimentos estéticos que deixaram pacientes com deformidades, infecções graves e complicações permanentes, removeu de seu perfil no Instagram pelo menos 164 publicações. As imagens mostravam a profissional realizando o chamado "mini lifting facial". O sobrinho dela, também dentista e sócio Nathan Laranja, igualmente foi indiciado pela Polícia Civil do Espírito Santo.

As exclusões ocorreram entre quarta-feira da semana passada, dia 27 de abril, e esta terça-feira, 2 de maio. A ação aconteceu depois que o Conselho Regional de Odontologia (CRO-ES) determinou a remoção de qualquer conteúdo que exibisse procedimentos odontológicos sendo executados. De acordo com o conselho, a dentista estaria descumprindo normas de publicidade previstas no Código de Ética Odontológica.

O CRO-ES havia concedido um prazo de 15 dias para que ela cumprisse a determinação, contados a partir do dia em que o órgão realizou uma fiscalização no Instituto Laranja, localizado em Vila Velha, na Grande Vitória, no último dia 27. O g1 procurou a defesa da dentista para saber se as publicações removidas têm relação direta com a ordem do Conselho de Odontologia. A defesa respondeu que "eventuais ajustes em plataformas digitais integram decisões de gestão de comunicação e conformidade adotadas de forma contínua, não cabendo inferências automáticas acerca de suas motivações", mas não confirmou se a exclusão está ligada à determinação do conselho.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Entenda o caso

O Gazeta Meio Dia (TV Gazeta) e o g1 publicaram, com exclusividade, reportagens sobre o indiciamento da dentista e influencer Mariana Laranja e de seu sobrinho e sócio, Nathan Laranja, pela Polícia Civil do Espírito Santo. Mariana Barros Laranja Roeder, de 44 anos, e Nathan Laranja Roeder Holz, de 25, foram indiciados por lesão corporal culposa após procedimentos de mini lifting facial realizados em uma clínica em Vila Velha.

O relatório final da investigação, concluído em abril de 2026, detalha os depoimentos de três pacientes que se submeteram ao procedimento com os dentistas. As vítimas relataram deformidades, infecções graves e complicações permanentes após o tratamento na clínica. O inquérito apontou que os profissionais não atendem aos requisitos técnicos mínimos e não demonstram aptidão para a realização de técnicas cirúrgicas invasivas de maior complexidade.

Reação da defesa e decisão judicial

Após as publicações, a defesa dos dentistas entrou na Justiça pedindo a retirada e a readequação das reportagens da TV Gazeta, do g1 Espírito Santo e do site A Gazeta, sob a alegação de que o conteúdo exclusivo publicado pelos veículos "extrapola os limites da informação jornalística". Na ação, os advogados afirmaram que as matérias expuseram os profissionais de forma "indevida" e solicitaram, além da exclusão dos conteúdos, a reformulação das publicações já veiculadas. A petição inicial sustenta que a cobertura teria ultrapassado o dever de informar e que os veículos teriam atribuído aos dentistas uma conduta criminosa antes do encerramento das apurações. A defesa alegou que a divulgação do caso poderia gerar danos à imagem e à reputação dos clientes, pedindo a intervenção do Judiciário para impedir a circulação das reportagens nas plataformas digitais.

A juíza plantonista Telmelita Guimarães Alves negou a exclusão das reportagens, mas acolheu parte dos pedidos e determinou a alteração dos títulos e do conteúdo, a inserção de uma nota definida pelo Poder Judiciário e a remoção de vídeos e posts das redes sociais, sob pena de multa diária. O departamento jurídico da Rede Gazeta recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF), sustentando que a decisão viola a liberdade de imprensa por representar interferência indevida no trabalho jornalístico.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Em decisão, o ministro Flávio Dino julgou integralmente procedente o pedido da Rede Gazeta e cassou a decisão que obrigava a TV Gazeta, g1 ES e A Gazeta a reescreverem e removerem posts e reportagens. "Considerando o teor das reportagens cuja alteração e retirada foi determinada pela autoridade reclamada, não vislumbro fundamento idôneo para a conclusão adotada no sentido de que as manifestações veiculadas pelo reclamante configurariam imputações aptas a extrapolar os limites do regular exercício da liberdade de imprensa", escreveu o ministro. Dino destacou ainda que "a retirada total ou parcial de conteúdos é medida absolutamente excepcional, à luz da liberdade de imprensa, conforme clara orientação jurisprudencial do STF, inclusive em precedentes vinculantes".

O que diz a defesa da dentista

"Esclarecemos que eventuais ajustes, reorganizações ou alterações de conteúdo em plataformas digitais da profissional integram decisões de gestão de comunicação e conformidade adotadas de forma contínua, não cabendo inferências automáticas acerca de suas motivações. Quanto ao procedimento administrativo mencionado, trata-se de matéria submetida aos órgãos competentes, ainda em curso, razão pela qual não haverá manifestação específica sobre seu conteúdo ou sobre providências internas eventualmente adotadas pela profissional. Reiteramos que a Dra. Mariana Laranja permanece exercendo regularmente seus direitos de defesa e acompanhando os procedimentos administrativos pelas vias adequadas".