A violência doméstica é um fenômeno estrutural que transcende os episódios de agressão e feminicídio noticiados diariamente. Uma pesquisa de doutorado que analisou 3.350 notícias publicadas entre 2015 e 2023 revela como a cobertura midiática influencia a compreensão social da violência, destacando a importância da prevenção, da identificação precoce dos sinais de abuso e da atuação integrada da rede de proteção.
O impacto da mídia na percepção da violência
O estudo, conduzido pela pesquisadora Milena Paula Samuel, mostra que a forma como a mídia retrata a violência doméstica pode tanto ajudar a conscientizar a sociedade quanto perpetuar estereótipos e revitimizar as mulheres. "A vítima morre várias vezes: primeiro pela agressão, depois pela exposição midiática que muitas vezes culpabiliza a mulher", afirma a pesquisadora.
A análise das notícias revelou que, em muitos casos, a cobertura jornalística foca no sensacionalismo e nos detalhes da violência, em vez de abordar as causas estruturais e as formas de prevenção. Isso contribui para uma compreensão superficial do problema e dificulta a identificação precoce dos sinais de abuso.
Prevenção e rede de proteção
A pesquisa enfatiza a necessidade de uma atuação integrada entre os diferentes atores da rede de proteção, incluindo polícia, sistema de justiça, serviços de saúde e assistência social. A identificação precoce dos sinais de violência é fundamental para evitar que os casos se agravem. "A mídia tem um papel crucial nesse processo, pois pode educar a população sobre os sinais de alerta e os recursos disponíveis", destaca Milena Paula Samuel.
Entre os sinais de abuso listados no estudo estão o controle excessivo, o isolamento social, a violência psicológica e as ameaças. A pesquisa também aponta que a violência doméstica não se limita a agressões físicas, mas inclui formas sutis de abuso que muitas vezes são normalizadas pela sociedade.
Desafios da cobertura jornalística
A análise das 3.350 notícias mostrou que a maioria das reportagens foca em casos de feminicídio e agressões graves, negligenciando as formas de violência menos visíveis. Além disso, muitas matérias utilizam linguagem que responsabiliza a vítima ou minimiza a gravidade do abuso. "A mídia precisa adotar uma abordagem mais ética e responsável, evitando a espetacularização da violência e dando voz às vítimas de forma respeitosa", defende a pesquisadora.
O estudo também identificou que a cobertura midiática varia significativamente entre diferentes regiões do Brasil, com algumas áreas apresentando uma abordagem mais sensível e informativa, enquanto outras ainda perpetuam práticas prejudiciais.
Recomendações para a mídia e a sociedade
Com base nos resultados, a pesquisa sugere que os veículos de comunicação invistam em treinamento de jornalistas para a cobertura de violência doméstica, priorizando a precisão das informações, a proteção da identidade das vítimas e a contextualização dos casos. Além disso, recomenda que as reportagens incluam informações sobre os canais de denúncia e os serviços de apoio disponíveis.
Para a sociedade, o estudo reforça a importância de desnaturalizar a violência doméstica e de apoiar as mulheres em situação de abuso. "Cada um de nós pode fazer a diferença ao denunciar casos suspeitos e ao oferecer suporte às vítimas", conclui Milena Paula Samuel.



