No domingo de manhã em que Edgard de Luna esperava a alta, uma oncologista entrou na sala dizendo que tinha resultados para discutir. Ele havia passado o fim de semana internado no Hospital São Camilo, na Pompeia, em São Paulo, fazendo exames que ninguém havia explicado direito. Achava que ia para casa. Estava sozinho. A médica despejou tudo de uma vez —câncer de pâncreas, prognóstico, próximos passos. Edgard ouviu sem conseguir assimilar. Quando ela saiu, pegou o celular e digitou no Google. A primeira coisa que apareceu: cinco meses de vida. Ele tinha 42 anos, duas filhas pequenas e nenhum histórico de doença grave. Não havia nenhum sinal que justificasse aquele domingo.
Hoje, oito anos depois, não tem doença detectável. O caso está sendo documentado para publicação científica e apresentado em congressos médicos como algo que a medicina ainda não sabe explicar completamente.
Uma dor que ninguém sabia nomear
Tudo havia começado meses antes, com um incômodo no estômago. Pronto-atendimento: remédio para verme. Não melhorou. Gastroenterologista: gastrite, H. pylori, antibióticos. Continuou. Outro gastro: troca de medicação. Persistiu. Quando a dor migrou para o meio das costas, um novo diagnóstico: contração muscular, provavelmente das aulas de capoeira que havia retomado na academia. Mais remédios. Duas horas em observação. Alta. Mais uma semana. A dor piorou.
Em uma quinta-feira, a esposa Andreia tinha um aniversário de família. Combinaram: amanhã a gente vai ao hospital. Na sexta, a médica que o atendeu tomou uma decisão diferente de todos os outros: "Você está vindo com esses sintomas há quase três meses. Não é normal", ele conta ter ouvido. Pediu tomografia com contraste. Quatro horas depois, voltou com um cirurgião ao lado. Tinha aparecido uma mancha. Queriam interná-lo naquele momento.
O que Edgard não sabia (e só entenderia mais tarde) era que a dor nas costas havia sido, paradoxalmente, sua sorte. O tumor estava encostado na artéria mesentérica. A médica explicou que foi essa pressão que causou o sintoma. E foi o que levou ao diagnóstico antes do estágio IV, quando já não há quase nada a fazer.
O adenocarcinoma de pâncreas é considerado pela maioria dos especialistas o câncer de pior prognóstico entre os mais estudados. O pâncreas fica escondido no fundo do abdômen, sem estruturas que produzam sintomas precoces. Quando a dor aparece, o tumor costuma já estar avançado —frequentemente inoperável, muitas vezes disseminado. A taxa de sobrevida em cinco anos, mesmo nos casos diagnosticados cedo e operados com sucesso, fica entre 30% e 50%. Nos casos avançados, cai para um dígito. O tumor de Edgard era o que a medicina chama de borderline para ressecabilidade: não claramente operável, mas não definitivamente inoperável. Estava na cabeça do pâncreas, perigosamente próximo de uma artéria. Operar de imediato era arriscado demais.
Doze sessões antes da faca
A estratégia escolhida foi a quimioterapia neoadjuvante —uma abordagem que tenta reduzir o tumor antes de tentar a cirurgia. A cada 15 dias, Edgard chegava à clínica na segunda-feira de manhã, ficava até as cinco da tarde recebendo a medicação, saía com uma bolsinha que continuava infundindo o quimioterápico por 48 horas e voltava na quarta para retirá-la. Às terças e quintas, trabalhava.
Nas primeiras sessões, Edgard saía da clínica acelerado, efeito contraintuitivo que ele mesmo achava engraçado, porque parecia que a quimioterapia o energizava em vez de derrubá-lo. Nas últimas, já não era mais assim. O cansaço acumulado foi derrubando o ritmo até que, perto da décima sessão, ele levantou da cama de manhã para tomar banho e caiu para trás. O labirinto havia cedido. Ficou quase uma hora no chão antes de conseguir se levantar. Foi o único momento em que parou de trabalhar. Foram 12 sessões no total.
Os exames mostraram redução tumoral suficiente. O cirurgião considerou que era hora. Mas entrou no centro cirúrgico com uma ressalva que disse à família sem rodeios: "pode ser que eu abra e consiga tirar, pode ser que não. Se não conseguir, acionamos os cuidados paliativos." "Desde o início eles nos falavam em 5% de chance de sobreviver", lembra Edgard. A cirurgia durou nove horas. Quatro cirurgiões na sala. O procedimento foi uma pancreatoduodenectomia —remoção do pâncreas e da alça de intestino delgado adjacente, um dos mais complexos da cirurgia abdominal. Quando o médico saiu da sala, Andreia conta que ele parecia prestes a erguer um troféu. "Tirei tudo. Deu tudo certo." Edgard passou o Natal, o aniversário e o Réveillon internado. Em janeiro, foi para casa.
A recidiva
Um mês depois da cirurgia, o marcador tumoral CA 19-9 continuava elevado. O cirurgião atribuiu à inflamação pós-operatória. A oncologista não se conformou. Pediu mais um mês. Continuou alto. Pediu um PET scan. Apareceu uma lesão. Pequena —entre 1,2 e 1,3 centímetros— numa região próxima ao local da cirurgia, possivelmente num linfonodo ou uma recidiva no próprio pâncreas. Os médicos não souberam identificar. Fazer quimioterapia convencional estava descartado: o organismo de Edgard precisava de tempo, a cirurgia era recente demais.
Jamile Almeida, a oncologista responsável pelo caso, conta ao g1 que apresentou aos colegas e ao próprio paciente duas opções: a primeira era a radiocirurgia —radioterapia de alta precisão direcionada àquele ponto específico, uma abordagem mais consolidada para esse tipo de situação. A segunda era pouco usual para o contexto do pâncreas: ablação por radiofrequência, com alguns dados de estudos japoneses em metástases hepáticas, mas pouco usada ali. "A nossa expectativa era controlar a recidiva por um tempo", admite a oncologista. "A gente não tinha expectativa nenhuma de que a lesão sumisse. Se a ablação não desse certo, ainda tínhamos a radiocirurgia. Depois, a quimioterapia. Havia um plano B e um plano C." Edgard topou a ablação.
Uma agulha que treme
O caso chegou a Ricardo Freitas, professor colaborador do Departamento de Radiologia e Oncologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e radiologista intervencionista. Freitas avaliou as imagens e concluiu que a lesão era tecnicamente tratável. A ablação térmica funciona assim: uma agulha fina é guiada por tomografia computadorizada em tempo real até o alvo. A ponta do eletrodo vibra em altíssima frequência, gerando calor localizado. Esse calor coagula as proteínas do tecido ao redor, matando as células. O tumor não é retirado —ele é desvitalizado. Em casos bem-sucedidos, o tecido morre e é gradualmente absorvido pelo organismo, deixando apenas uma cicatriz. "Não é cirurgia", diz Jamile. "O tumor não é retirado, ele é desvitalizado no local. Posso matar aquele tecido, mas não o removo. E pode dar certo, o tumor ficar controlado. Ou não."
Freitas chegou ao nódulo de Edgard pela tomografia, confirmou a lesão com biópsia e, com o mesmo instrumento, aplicou o tratamento. A dor foi mais intensa do que o esperado —Edgard precisou de morfina e ficou internado. No dia seguinte, o médico voltou ao quarto com as notícias: havia conseguido queimar o tecido doente por todos os lados. Nos meses seguintes, os exames não mostraram recidiva. Nos anos seguintes, também não. Hoje, cerca de oito anos após a ablação, Edgard não tem doença visível detectável. "O tumor sumiu. Ficou só a cicatriz do procedimento", diz Jamile. "Isso é caso anedótico. Não é comum acontecer assim."
Por que não é uma receita
Tanto a oncologista quanto o radiologista são precisos ao calibrar o que o caso de Edgard significa. A ablação não é indicada para qualquer tumor, em qualquer localização, em qualquer estágio. Jamile elenca três critérios que precisam ser avaliados em conjunto: a acessibilidade da lesão —se está próxima de grandes vasos, o risco de romper a estrutura ao aquecê-la é real; o tipo e subtipo molecular do tumor; e o status da doença, se está confinada àquele ponto ou já circula em outros locais. A grande maioria dos pacientes, segundo ela, não será candidata ao procedimento.
A técnica acumula evidências principalmente em metástases hepáticas e em tumores de outros órgãos. Para o câncer de pâncreas especificamente, os dados ainda são limitados: uma revisão publicada em janeiro de 2026 no World Journal of Gastrointestinal Oncology mapeou os principais estudos disponíveis e concluiu que, embora os resultados sejam promissores —especialmente quando a ablação é combinada com quimioterapia—, a ausência de ensaios clínicos randomizados em larga escala impede que o procedimento seja considerado tratamento padrão.
Freitas acrescenta outra camada. Na oncologia, tumores do mesmo tipo podem ter comportamentos muito distintos —e o câncer de pâncreas também tem seu espectro, com formas mais e menos agressivas. O tumor de Edgard, quando recidivou, o fez com uma lesão única, em lugar acessível, encontrada precocemente por disciplina nos exames de controle. Houve ainda a circunstância de a equipe que o acompanhava conhecer e praticar o procedimento. Retirar qualquer um desses fatores, e o desfecho poderia ter sido outro.
Há o que a medicina não consegue responder. Jamile não tem nenhuma alteração molecular específica do tumor que explique por que deu certo. Na época do tratamento, a avaliação molecular disponível era limitada. Hoje haveria mais recursos —mas Edgard não tem mais tumor para testar. O caso está sendo documentado por Freitas para publicação científica.
Depois
Hoje, Edgard de Luna tem 50 anos. Faz acompanhamento regular. Toma uma enzima digestiva para o pâncreas —embora sua médica já tenha sugerido que talvez nem precise mais. Ficou com uma neuropatia leve nas extremidades, sequela reconhecida da quimioterapia, mas sem restrições alimentares e sem limitações funcionais. Recentemente viajou com Andreia a Portugal para cumprir uma promessa feita em Fátima durante o tratamento. Perguntado sobre o que mudou, detalha: "Os problemas ficam pequenos. Um erro na gráfica, o pessoal nervoso… Para mim, isso não tem tamanho. Chega a ser engraçado."



