Embora não existam estudos científicos que comprovem que cães e gatos percebem a gravidez de suas tutoras, especialistas afirmam que esses animais são capazes de detectar mudanças fisiológicas e hormonais por meio do olfato. A médica-veterinária Andrea Cristina Higa Nakaghi, professora da Universidade de Sorocaba (Uniso), explica que cães e gatos são extremamente sensíveis às alterações no odor corporal e no comportamento dos tutores. "Os cães, principalmente, possuem um olfato altamente desenvolvido e podem detectar alterações hormonais por meio do odor corporal", afirma.
Comportamentos comuns durante a gestação
Durante a gestação, alguns animais passam a deitar a cabeça na barriga da tutora. Segundo Andrea, esse comportamento está relacionado ao vínculo afetivo e ao conforto térmico. "A barriga da gestante costuma estar mais aquecida, e cães e gatos gostam de procurar locais quentes para descansar. Além disso, podem estar buscando proximidade com a tutora." Nos estágios finais da gestação, é possível que os pets percebam movimentos fetais ou vibrações quando estão muito próximos da barriga, mas não há evidências de que compreendam a existência de um bebê. "Acredito que os cães e gatos que percebem essas mudanças já sejam animais mais próximos dos tutores e já tenham o hábito de procurar se aconchegar no colo independente da gestação", reforça a veterinária.
Relato de tutores: de 'ignorado' a guardião
Na casa da engenheira Monique Estela Figuerêdo e do empresário Douglas Canton de Oliveira, em Sorocaba (SP), o buldogue francês Paçoca não apresentou alterações comportamentais durante a gestação de Manuela, hoje com cinco meses. "Ele não percebeu as mudanças no ambiente, não interagiu com a barriga e viveu normalmente durante toda a gravidez", conta Monique. Para facilitar a adaptação, os tutores guardaram a primeira toquinha da bebê, ainda com sangue do nascimento, e a deixaram na caminha de Paçoca para que ele se familiarizasse com o cheiro. Quando a família chegou em casa, o cão já estava aguardando e o primeiro contato foi supervisionado. No entanto, nos dias seguintes, a mudança de comportamento das visitas, focadas na recém-nascida, gerou reações no cão: latidos excessivos e xixi no sofá. "Como a Manu é a primeira filha, neta e sobrinha, recebemos muitas visitas, e todos ficaram muito focados nela. De certa forma, o Paçoca acabou sendo 'ignorado', algo que não era comum para ele", explica Monique. O casal contratou um adestrador para lidar com o estresse do animal. "A ajuda de um profissional foi muito importante para entendermos o lado dele. Percebemos que ele estava estressado com a mudança de rotina e que precisaríamos criar uma nova dinâmica", diz. Com as orientações, a relação entre Paçoca e Manu melhorou, e o cão assumiu um papel de guardião, permanecendo sempre no mesmo ambiente que a bebê.
Transtornos de personalidade em pets
Animais com maior apego podem desenvolver transtornos como ansiedade de separação, estresse crônico e comportamentos compulsivos durante a gestação e após a chegada do bebê. Os tutores devem ficar atentos a sinais como comportamento mais protetor, busca por mais contato físico, marcação de território, aumento da ansiedade, lambidas excessivas nas patas (principalmente após o nascimento), perseguição da cauda, micção inadequada e aumento de agressividade. "O importante é sempre estar atento às mudanças comportamentais dos pets e, caso sejam persistentes e comprometam a saúde e a qualidade de vida deles, não hesitar em procurar um veterinário", alerta Andrea.
Cuidados necessários para a adaptação
Para evitar sofrimento, a veterinária recomenda manter a rotina de alimentação, passeios, brincadeiras e atenção; acostumar o animal aos novos objetos e ambientes do bebê; reforçar comportamentos calmos com recompensas positivas; evitar mudanças bruscas de rotina após o nascimento; e evitar punições relacionadas à presença do bebê. "A melhor forma de evitar problemas é mantendo os horários e a rotina o mais semelhantes possível do que eram antes da chegada do bebê, reservando diariamente um momento exclusivo com o animal", orienta. "Uma dica é dar carinho e petiscos quando estiver com o bebê. Assim, o animal associa a presença dele a uma experiência positiva. E fazer enriquecimento ambiental com brinquedos, atividades e petiscos para o animal não manter a atenção apenas no novo integrante. Isso é muito importante, em especial para gatos", completa.
Primeiros contatos entre bebê e pet
O primeiro contato deve ser supervisionado. No caso dos cães, é importante que gastem energia antes do encontro, principalmente os mais agitados e grandes. "Mantenha o ambiente calmo e deixe que o cão ou gato chegue próximo voluntariamente. Deixe o animal cheirar o bebê de forma controlada, mas nunca deixe o bebê e o animal sozinhos, independentemente da confiança no pet. A adaptação deve ser gradual, sem forçar o animal. É importante também acostumar a criança e ensinar a conviver com o pet de forma tranquila", conclui Andrea.



