Pode parecer simples escrever, mas, na verdade, o ato envolve uma sequência de exercícios cognitivos complexos. Com isso em mente, pesquisadores da Universidade de Évora, em Portugal, realizaram um estudo com 58 idosos mostrando como a caligrafia pode estar associada ao envelhecimento saudável.
Caligrafia como indicador cognitivo
Publicada na revista Frontiers in Human Neuroscience, a pesquisa mostrou que a análise computadorizada da caligrafia, especialmente quando a pessoa escreve o que ouve (ditado), pode ajudar a distinguir idosos com comprometimento cognitivo daqueles com envelhecimento saudável. Parâmetros como a duração dos traços e o número de movimentos da caneta foram os principais indicadores de declínio.
A escrita: um caminho para o cérebro
A escrita não é apenas uma atividade motora; é uma janela para o cérebro, afirma a pesquisadora responsável pelo estudo, Ana Rita Matias. Os testes, realizados em uma mesa digitalizadora que registra posição, pressão e tempo de escrita, incluíram de controle motor — fazer pontos e linhas horizontais por 20 segundos, por exemplo — a velocidade de escrita: copiar uma frase curta, ditar a frase, então ditar uma frase mais longa e copiar a frase longa.
Foram analisados tamanho vertical e horizontal, inclinação, tempo de início, duração total, proporção de tempo com a caneta na mesa, suavidade do movimento, pressão média e número de traços. Na segunda parte do teste, os resultados foram mais conclusivos: As tarefas de ditado são mais sensíveis porque exigem que o cérebro faça várias coisas ao mesmo tempo: ouvir, processar a linguagem, converter sons em forma escrita e coordenar movimentos, afirmou Matias, que completou: À medida que esses sistemas cognitivos declinam, a escrita torna-se mais lenta, fragmentada e menos coordenada.
Mesmo em tarefas de ditado, podem surgir diferenças. Uma frase mais longa, menos previsível ou linguisticamente complexa exige maior esforço dos recursos cognitivos, completa. Segundo ela, adultos mais velhos com comprometimento cognitivo exibem padrões distintos no ritmo e na organização de seus movimentos de escrita. As tarefas de ditado, que exigem maior capacidade cognitiva, demonstraram que o declínio cognitivo se reflete na eficiência e coerência com que os movimentos da escrita manual são organizados ao longo do tempo.



