Add-ons de fertilização in vitro falham em comprovar benefícios, aponta estudo
Add-ons de FIV falham em comprovar benefícios, diz estudo

Uma revisão internacional liderada por pesquisadores da Universidade de Melbourne, na Austrália, concluiu que a maior parte dos chamados 'add-ons' — terapias adicionais oferecidas durante o tratamento de fertilização in vitro (FIV) — não possui evidências robustas de benefício. O estudo, publicado na revista científica 'The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women's Health', analisou dez dos add-ons mais utilizados em clínicas de reprodução assistida e concluiu que apenas três apresentaram algum sinal de benefício, ainda que com evidências limitadas.

Contexto e impacto dos add-ons na FIV

A pesquisa surge em um cenário em que mais de 70% dos pacientes de FIV no Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia relatam usar pelo menos um desses procedimentos adicionais durante o tratamento. Segundo a líder do estudo, Sarah Lensen, da Universidade de Melbourne, a oferta de terapias sem comprovação pode gerar falsas expectativas e custos extras para os pacientes. 'Add-ons não comprovados podem levar a falsas esperanças, maior pressão financeira e procedimentos médicos desnecessários em um momento que já pode ser muito difícil para os pacientes', afirmou a pesquisadora, segundo nota divulgada pela universidade.

Procedimentos que não mostraram benefício

Os pesquisadores avaliaram dez add-ons amplamente oferecidos por clínicas de fertilidade. Sete deles não apresentaram evidências convincentes de melhora nas chances de gravidez ou nascimento de um bebê: acupuntura; corticoides; teste de receptividade endometrial (ERA); infusão de intralipídios; plasma rico em plaquetas (PRP) aplicado nos ovários; PRP aplicado no útero; e teste genético pré-implantacional para aneuploidias (PGT-A). O caso do PGT-A chama atenção porque o procedimento é amplamente utilizado em clínicas de fertilidade ao redor do mundo. A revisão concluiu que ele não aumentou as taxas de nascimento quando analisados os dados disponíveis de maior qualidade.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Três add-ons com possível benefício

Entre os dez procedimentos avaliados, três apresentaram resultados considerados promissores pelos pesquisadores. O chamado EmbryoGlue, um meio de transferência embrionária enriquecido com ácido hialurônico, mostrou sinais de aumento das taxas de gravidez, embora o benefício sobre nascidos vivos não tenha sido considerado robusto. A raspagem endometrial ('endometrial scratching'), uma intervenção que provoca uma pequena lesão controlada no revestimento do útero antes da transferência do embrião, foi associada a um aumento de cerca de 20% na chance relativa de nascimento vivo (OR 1,20). Já o PICSI, técnica usada para selecionar espermatozoides com características consideradas mais favoráveis à fecundação, não aumentou significativamente os nascimentos, mas esteve associado a uma redução de aproximadamente 42% no risco relativo de aborto espontâneo (OR 0,58). Mesmo nesses casos, os autores ressaltam que as evidências permanecem limitadas.

Quase metade dos estudos foi descartada

Um dos aspectos mais incomuns da pesquisa foi a avaliação da confiabilidade dos estudos. Dos 157 ensaios clínicos potencialmente elegíveis, 72 foram excluídos por apresentarem problemas considerados relevantes, como ausência de registro prévio dos testes, falhas metodológicas ou preocupações sobre a integridade dos dados. Isso significa que quase metade das pesquisas disponíveis sobre add-ons não foi considerada suficientemente confiável para integrar a análise final. Segundo os autores, o resultado revela um problema mais amplo na área da medicina reprodutiva: 'Aproximadamente metade dos estudos potencialmente elegíveis foi excluída por preocupações de confiabilidade', escreveram os pesquisadores.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Opinião de especialistas

Especialistas ouvidos pelo Science Media Centre Espanha afirmam que o estudo reforça uma preocupação crescente na medicina reprodutiva: a incorporação de procedimentos complementares à fertilização in vitro antes que existam evidências robustas de benefício. Para María Jiménez Movilla, pesquisadora da Universidade de Murcia, o trabalho reforça a necessidade de maior supervisão regulatória e de investimentos em pesquisa básica para evitar que interesses comerciais se sobreponham às evidências científicas. Francisco Domínguez, coordenador de Pesquisa da Fundação IVI e chefe do Grupo de Biologia Reprodutiva e Bioengenharia em Reprodução Humana do IIS La Fe, considera que a revisão foi conduzida com rigor metodológico e confirma conclusões já sugeridas por estudos anteriores. Ele ressalta, porém, que a falta de evidências sólidas para a maioria dos add-ons não significa necessariamente que eles sejam ineficazes, mas sim que ainda faltam pesquisas de maior qualidade para esclarecer seus benefícios. Segundo o especialista, 'a ausência de evidência sólida não sempre equivale a evidência de ausência de benefício'.

Metodologia, pontos fortes e limitações

Os pesquisadores da Universidade de Melbourne realizaram uma revisão sistemática e meta-análise de ensaios clínicos randomizados envolvendo dez add-ons comuns da fertilização in vitro. Foram identificados 157 estudos potencialmente elegíveis, mas apenas 85 foram considerados confiáveis o suficiente para a análise final após uma avaliação de integridade metodológica. De acordo com especialistas independentes, o principal ponto forte é justamente esse rigor na seleção dos estudos, reduzindo o risco de resultados distorcidos por pesquisas problemáticas. Como limitação, os próprios autores reconhecem que o instrumento usado para avaliar a confiabilidade dos estudos ainda não foi formalmente validado e que alguns trabalhos excluídos poderiam conter dados úteis. Além disso, muitas pesquisas incluídas eram pequenas ou apresentavam risco de viés, o que reduz a certeza das conclusões.