Disputa judicial pelo acervo de Lélia Gonzalez envolve terreiro de candomblé
Disputa judicial pelo acervo de Lélia Gonzalez envolve terreiro de candomblé

O acervo da antropóloga Lélia Gonzalez, uma das mais importantes intelectuais negras do Brasil, tornou-se alvo de uma disputa judicial entre seus herdeiros e os líderes do Ilê da Oxum Apará, terreiro de candomblé e umbanda em Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O material, que inclui manuscritos, documentos, fotografias e a biblioteca pessoal de Gonzalez, está guardado no terreiro desde 1994, quando foi doado pela sobrinha da antropóloga, Eliane de Almeida, ao babalorixá Jair de Ogum, guia espiritual de Gonzalez.

Após a morte de Jair de Ogum em 2020, a liderança do terreiro passou para seu filho, Leonardo Ogum-Faislon. Os familiares de Lélia Gonzalez afirmam que, enquanto Jair estava vivo, tinham acesso livre ao acervo, mas que esse acesso foi negado após a mudança na liderança. Faislon, por sua vez, nega ter restringido o acesso e afirma nunca ter obtido lucro com o material.

Em agosto de 2023, a Justiça recusou um pedido de liminar de busca e apreensão do acervo solicitado pela família. O juiz determinou que ambas as partes apresentem mais provas, e o processo ainda não tem data para julgamento. O acervo está armazenado em um sobrado de dois pavimentos no terreiro, com duas salas contíguas: uma com estantes de aço repletas de livros, e outra que reproduz o ambiente de trabalho de Gonzalez, com sua escrivaninha, máquina de escrever Olivetti Linea 98 e um abajur africano.

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Na segunda sala, dezenas de caixas de papelão e plástico contêm documentos, manuscritos, fotos, recortes de jornais e panfletos. Entre os itens de grande valor histórico está um texto datilografado que delineia a estratégia do Movimento Negro Unificado (MNU), do qual Gonzalez foi fundadora em 1978. O documento afirma que a exploração do negro se baseia em três pilares: exploração econômica, opressão psicológica e violência policial, e que o objetivo principal é destruir esse “tripé maligno”.

O acervo também inclui originais de artigos e ensaios, como “Por um feminismo afro-latino-americano”, de 1988, e comentários manuscritos, como uma crítica à peça “Anjo Negro”, de Nelson Rodrigues. Gonzalez escreveu que a arte investiga destinos humanos que falharam, e que quanto maior a inversão do esperado, maior a beleza trágica da obra. A disputa judicial coloca em risco a preservação desse legado intelectual.

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