Um estudo liderado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revelou como a demência acomete silenciosamente os idosos brasileiros. Segundo a pesquisa, publicada recentemente na revista científica International Journal of Geriatric Psychiatry, 4 em cada 5 idosos com quadro de demência no País simplesmente não sabem que vivem com essa condição.
O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros
O Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) acompanhou 5,2 mil idosos e, a partir de testes cognitivos e medidas de comprometimento funcional, encontrou quase 400 deles com demência. Desse recorte, 83% não tinham um diagnóstico prévio, indicando um elevado grau de subdiagnóstico no Brasil.
Cruzamento de Dados
O cruzamento dos achados dos pesquisadores da Unifesp com os dados do Relatório Nacional sobre a Demência, publicado pelo Ministério da Saúde em 2024, aponta para a existência de um grande desafio: hoje, mais de 2 milhões de pessoas podem estar vivendo com demência no Brasil sem que saibam. Logo, um dos principais feitos do estudo da Unifesp foi jogar luz sobre um apagão informacional.
Perfil dos Idosos com Demência
Além de dar a real dimensão do problema, a pesquisa também conseguiu traçar o perfil dos idosos com demência. O que se descobriu foi que, desde muito cedo até o fim da vida dos brasileiros, as desigualdades socioeconômicas condenam boa parte deles à privação. Segundo o estudo, o subdiagnóstico foi mais frequente nas regiões mais pobres (90,2%) do que nas regiões mais ricas (76,0%), e maior entre os indivíduos analfabetos (93,9%).
Fatores Contribuintes
Tudo isso ocorre, segundo os pesquisadores da Unifesp, por uma série de fatores, a começar por questões culturais e comportamentais. É bastante comum as famílias – mais por desconhecimento do que por negligência – ignorarem os primeiros sintomas da demência, em razão de uma crença equivocada, segundo os autores do estudo, “de que o declínio cognitivo é uma consequência esperada do envelhecimento”. Somam-se a isso as dificuldades de acesso ao sistema de saúde e as falhas na formação dos profissionais.
Desafios e Perspectivas
A realidade se impõe: os brasileiros estão vivendo mais, e o número de idosos no País, que aumentará ainda mais nas próximas décadas, exige desde já políticas voltadas ao cuidado com a população idosa e a preparação para os desafios futuros. Saber o tamanho do problema é um bom começo.
Com base em dados e evidências, o poder público poderá elaborar, testar e implementar políticas públicas eficientes em saúde mental. Isso inclui a detecção precoce da demência, a educação dos pacientes, dos cuidadores e dos profissionais de saúde, o planejamento do cuidado e o acesso ao tratamento, às terapias e ao apoio psicossocial.
Os parentes também poderão se preparar melhor para uma longa jornada que demandará dedicação, atenção e carinho com os pacientes, bem como o cuidado consigo mesmos. E não menos importante: com o suporte adequado, o controle dos sintomas e o tratamento correto, os pacientes idosos poderão ter mais apoio para organizar a própria vida e preservar sua autonomia pelo maior tempo possível, vivendo com mais qualidade.



