Quando surgem suspeitas de irregularidades envolvendo contratos públicos, espera-se que um governante adote uma atitude simples e previsível: manifestar apoio às investigações, cobrar esclarecimentos e assegurar que eventuais responsáveis sejam punidos. Afinal, seu dever institucional é proteger o interesse público. Foi justamente esse roteiro básico que o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), abandonou ao comentar a operação policial que investiga possíveis fraudes no programa WiFi Livre SP.
Investigação aponta indícios de fraude milionária
A investigação conduzida pela Polícia Civil aponta indícios que justificam apuração rigorosa. Os investigadores falam em possível fraude na seleção da entidade responsável pelo serviço, sobrepreço e potencial prejuízo milionário aos cofres públicos. Segundo o inquérito, ao menos R$ 26 milhões podem ter sido desembolsados sem a correspondente prestação dos serviços. Também são apuradas suspeitas de desvio de recursos e confusão patrimonial envolvendo a organização contratada.
Reação do prefeito gera estranheza
Em vez de concentrar sua manifestação na necessidade de esclarecer os fatos apurados, Nunes preferiu sugerir que a operação poderia decorrer de motivações políticas ligadas à produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A estranheza aumenta quando se observa o argumento escolhido pelo prefeito. “Eu tenho empresa de embalagem, eu tenho empresa de aterro sanitário, eu tenho fazenda, eu tenho várias atividades”, afirmou. A comparação é curiosa. O que os investigadores procuram esclarecer não é se alguém pode exercer atividades econômicas diversas. Tampouco se discute a legitimidade de produzir filmes, administrar empresas ou explorar propriedades rurais. O que está sob exame é um contrato público específico e a aplicação dos recursos a ele destinados.
Objeto da investigação permanece o mesmo
Ninguém abriu um inquérito para investigar um filme. Ninguém realizou buscas para examinar opiniões políticas de produtores culturais. O objeto da investigação continua sendo exatamente o mesmo desde o início: um contrato público de internet gratuita e a correta aplicação dos recursos destinados a ele. O filme Dark Horse aparece muito mais nas especulações que passaram a circular nas redes sociais do que nos fatos que fundamentam a apuração policial.
Também não parece fazer sentido falar em perseguição política. A investigação é conduzida pela Polícia Civil de São Paulo. Para que a tese levantada pelo prefeito se sustentasse, seria necessário admitir que a própria estrutura policial do Estado estivesse mobilizando uma investigação sobre um contrato administrativo por razões político-partidárias. Não por acaso, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao comentar a operação, limitou-se a reafirmar a autonomia da polícia e a lembrar que se trata de uma instituição de Estado que atua a partir de demandas do Ministério Público. Foi exatamente a atitude que se espera de um agente público diante de uma investigação em curso.
Inversão de prioridades preocupante
Mas o aspecto mais preocupante da reação do prefeito não está apenas na fragilidade do argumento. Está na inversão de prioridades que ela revela. Quando surgem suspeitas de que milhões de reais possam ter sido desperdiçados, a primeira preocupação de um governante deveria ser descobrir se a população foi prejudicada. No caso do WiFi Livre, a questão é ainda mais sensível porque se trata de um serviço criado para ampliar o acesso à internet em comunidades vulneráveis. Se as suspeitas forem confirmadas, haverá prejuízo direto aos cidadãos que deveriam ser beneficiários da política pública.
Prefeitos são eleitos para zelar pelo patrimônio público e exigir que cada real arrecadado dos contribuintes produza o resultado prometido à sociedade. A pergunta que deveria orientar a reação de qualquer administrador público é simples: houve ou não prejuízo ao interesse coletivo? Ao deslocar a discussão para uma suposta perseguição política, Nunes ajuda a obscurecer justamente aquilo que mais interessa aos paulistanos: saber se o dinheiro público foi empregado da forma correta. Diante de suspeitas dessa gravidade, essa não deveria ser apenas sua principal preocupação. Deveria ser a única.



