O monotrilho da Linha 17-Ouro, na zona sul de São Paulo, finalmente está na reta final para inauguração. A previsão é que comece a transportar passageiros de forma parcial, com maior intervalo entre trens e horário restrito, no fim de março de 2026. A abertura do modal, que liga o Aeroporto de Congonhas à rede metroferroviária, ocorre com 13 anos de atraso. A obra deveria ter ficado pronta em 2013, e o contrato foi assinado em 2011, na gestão do então governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Promessa para a Copa do Mundo de 2014
A Linha 17-Ouro era uma das promessas para a Copa do Mundo de 2014. Em 13 de janeiro de 2010, Prefeitura, Estado e governo federal assinaram um termo de compromisso para melhorias essenciais para a capital sediar o evento. Entre as iniciativas, constava a construção do monotrilho, um trem aéreo com 18 estações. A ideia era conectar o aeroporto ao Estádio do Morumbi e ao Terminal Rodoviário do Jabaquara, facilitando o trajeto de torcedores e turistas. No entanto, seis meses depois, em junho de 2010, o Morumbi foi excluído da Copa, e os jogos foram transferidos para a arena do Corinthians. Apesar disso, o projeto da Linha 17 seguiu, mas perdeu prioridade.
Atrasos e impactos da Lava Jato
As obras começaram em 2012, com prazo de dois anos para a Copa. No entanto, desapropriações e licenças ambientais demoraram, e houve disputas judiciais de moradores contrários ao elevado na Avenida Roberto Marinho. Após a Copa, o financiamento federal foi perdido, e a Lava Jato impactou as empreiteiras responsáveis: Andrade Gutierrez, CR Almeida e MPE, que foram alvos da operação. Isso comprometeu a situação financeira das empresas, e os canteiros foram abandonados. O Metrô de São Paulo rescindiu o contrato em 2016, e a obra ficou parada por anos.
“A obra se arrastou ao longo do tempo, com grande sofrimento para quem mora na região. A Avenida Roberto Marinho teve faixas interditadas, trazendo congestionamento, por anos. O abandono causou degradação do entorno do canteiro. A população pagou custo muito elevado pelo atraso”, afirma Claudio Barbieri, professor de Engenharia de Transporte da USP.
Retomada e adaptação tecnológica
O empreendimento só foi retomado em 2020, mas passou por novas trocas de empresas e paralisações. A empresa inicialmente contratada para fornecer os veículos, a Scomi, faliu. A estrutura das vigas foi projetada para os veículos da marca, e monotrilhos de outras empresas teriam tamanhos diferentes. A chinesa BYD foi contratada para construir os trens e precisou adaptar seu monotrilho para caber nas vigas existentes. “Tivemos de criar uma linha de teste na China, com os moldes da Linha 17, para conseguirmos adaptar o nosso trem. Gastamos horas e horas de engenharia. Fizemos inúmeros testes”, diz Alexandre Barbosa, diretor técnico da BYD Skyrail.
Custos elevados
Em 2010, o projeto de 18 estações era orçado em R$ 2,9 bilhões, que seriam divididos entre governos federal, estadual e municipal. Corrigidos pela inflação até dezembro de 2025, esse valor representa R$ 7,1 bilhões. O governo já gastou R$ 4,2 bilhões até outubro de 2025, e a previsão é de que o custo total chegue a R$ 5,9 bilhões para a conclusão apenas do primeiro trecho, com oito estações. Para construir só oito estações, o governo de São Paulo gastou 83% do valor orçado em 2010 para 18 paradas. “O monotrilho que era para ser uma linha rápida, barata e bonita é uma tragédia econômica com custos estratosféricos”, resume Sergio Ejzenberg, engenheiro e mestre em Transportes pela USP.
Inauguração parcial e planos futuros
A linha será inaugurada com oito estações: Washington Luís, Congonhas, Brooklin Paulista, Vereador José Diniz, Campo Belo, Vila Cordeiro, Chucri Zaidan e Morumbi. A operação será assistida, com horários reduzidos e intervalo maior entre trens. O Metrô afirma que ainda há intenção de construir as outras dez paradas, completando o trecho até as estações São Paulo-Morumbi (Linha 4-Amarela) e Jabaquara (Linha 1-Azul). Em 2026, está prevista a contratação do projeto técnico para quatro estações: Panamby, Paraisópolis, Américo Maurano e Vila Paulista. A expectativa é iniciar a construção em 2029, com entrega preliminar em 2031, segundo o diretor de Engenharia e Planejamento do Metrô, Roberto Torres Rodrigues.



