Gravuras de escravizados em Ouro Preto são reconhecidas como sítio arqueológico
Gravuras de escravizados em Ouro Preto são reconhecidas como sítio arqueológico

Por centenas de anos, gravuras traçadas no porão de um sobrado de Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, passaram despercebidas. Os desenhos, feitos possivelmente por pessoas escravizadas a partir da década de 1750, foram descobertos durante uma reforma no casarão e, agora, integram um sítio arqueológico reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O imóvel, localizado no número 134 da Rua Conde de Bobadela, antiga Rua Direita, foi construído há mais de 260 anos. Os pais do administrador Philipe Passos compraram a casa por volta de 1980, com a intenção de abrir um restaurante. Foi um funcionário que notou os desenhos, inscritos em um painel de argamassa sobre uma parede de pedras no porão, e alertou a família após o início das obras, em 2017.

O historiador e arqueólogo Leonardo Klink soube das gravuras pelas notícias de jornais da época e, há quatro anos, dedica-se a estudar o painel e o sobrado, tema do projeto de pesquisa de doutorado dele na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ele identificou 26 gravuras, algumas invisíveis a olho nu. Há, por exemplo, uma embarcação com três pessoas a bordo, uma máscara com feições humanas com uma espécie de barba, um felino, duas aves e plantas, além de formas geométricas.

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Segundo Klink, as gravuras foram feitas por meio de grafite mineral e incisões na parede – com uso de pregos e cacos de vidro, por exemplo. Não é possível saber exatamente quem desenhou nem quando, mas a pesquisa indica que várias mãos, possivelmente até de gerações diferentes, deixaram marcas no painel, entre a década de 1750 e a primeira metade do século 19. O contexto em que esses desenhos foram feitos também é um mistério: apesar de haver relatos de que os porões dos sobrados eram usados como senzalas, essa é apenas uma das possibilidades.

O painel foi oficialmente registrado como sítio arqueológico e cadastrado no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Iphan em 23 de março de 2026, com o nome "Inscrições Afrodiaspóricas". O parecer técnico que recomendou o reconhecimento, assinado pelo arqueólogo Daniel Gabriel da Cruz, destaca o "valor único" do bem. O Iphan disse, em nota, que "está direcionando esforços para o projeto de conservação do painel" e a elaboração de diretrizes para visitação.

O administrador Philipe Passos, que também é responsável pela restauração do imóvel, ainda não sabe qual será o destino final da casa, mas a ideia da família é que o porão seja destinado à contemplação do painel.

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