Disputa por empréstimos de SP expõe guerra entre Lula e Tarcísio
Disputa por empréstimos de SP expõe guerra Lula x Tarcísio

A disputa em torno da liberação de empréstimos para o estado e a cidade de São Paulo transformou-se em nova arena de confronto político, opondo de um lado o governador Tarcísio de Freitas, o senador Flávio Bolsonaro e o prefeito Ricardo Nunes, e de outro o governo Lula e o ministro Fernando Haddad. Nos últimos meses, representantes do governo estadual e da capital denunciam uma demora incomum na aprovação de financiamentos, especialmente com bancos estrangeiros, que atribuem a uma suposta retenção na Casa Civil.

Acusações de boicote e respostas do governo federal

As queixas, antes restritas a conversas reservadas, ganharam tom público com declarações de Flávio Bolsonaro, que acusou o presidente Lula de promover um “boicote” aos paulistas. Em resposta, o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, divulgou nota rebatendo as críticas e destacando que o governo federal trata estados e municípios “de forma republicana”, além de lembrar a “completa omissão” da gestão Jair Bolsonaro no financiamento a São Paulo.

O caso envolve pedidos de empréstimos que somam bilhões de reais, destinados a obras de mobilidade urbana e infraestrutura. O governo estadual perdeu um financiamento de US$ 250 milhões para a Linha 2 (Verde) e outro de US$ 400 milhões para a Linha 4 (Amarela) do metrô, ambos com o Banco Mundial, porque o processo não foi concluído dentro do prazo fiscal, expirando em abril.

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Perda de prazos e impactos no planejamento

Segundo relatos e documentos obtidos pelo GLOBO, o pedido para essas obras foi feito em janeiro de 2025. Após pareceres favoráveis do Ministério da Fazenda, o processo foi enviado à Casa Civil em setembro, onde permaneceu parado até fevereiro, quando o Banco Mundial alertou que o processo seria cancelado se não fosse concluído até abril. A Fazenda liberou o processo em março, mas o prazo venceu e o estado perdeu o financiamento, tendo que reiniciar todo o trâmite.

Outra queixa envolve um pedido de quase R$ 6 bilhões para obras de extensão das linhas 5, 6, 8, 9, 11, 12 e 13 do metrô e trem, além de novas travessias hídricas e a duplicação da rodovia dos Tamoios. O governo estadual tentou obter parte desses recursos no BNDES, mas teve um pedido negado, recorrendo ao Banco do Brasil com garantia da União. O pedido foi feito em novembro e segue sob análise da Fazenda, o que integrantes da gestão Tarcísio consideram uma demora incomum, que prejudica o planejamento orçamentário do estado.

Prefeitura de SP também enfrenta entraves

No âmbito municipal, o prefeito Ricardo Nunes reclama da lentidão na liberação de três empréstimos junto ao Banco Mundial (BIRD) e ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Dois deles, de US$ 248 milhões cada, são para a compra de ônibus elétricos; o terceiro, de US$ 205 milhões, é para o projeto Avança Saúde. Os processos estão na Casa Civil desde abril, sem encaminhamento ao Senado, o que motivou Nunes a declarar: “A cidade de São Paulo está sendo perseguida por esse governo, é algo inadmissível”.

O Ministério da Fazenda afirma que as operações seguem o trâmite regular e que a análise do caso do estado foi iniciada em novembro, com troca de informações para complementação documental. A pasta nega atrasos e atribui o aumento da demanda ao período eleitoral. A Casa Civil, por sua vez, limitou-se a dizer que todos os processos seguem os procedimentos administrativos e técnicos previstos.

Mercadante rebate e destaca números

Em sua nota, Mercadante apresentou dados que contradizem a acusação de boicote: o BNDES aprovou R$ 163,5 bilhões em operações para São Paulo em sua gestão, 78,6% a mais que nos quatro anos do governo Bolsonaro. Para o governo estadual, foram R$ 13,7 bilhões, 4,5 vezes mais que os R$ 3 bilhões do período anterior; para a cidade, R$ 2,5 bilhões, enquanto nada foi aprovado no governo Bolsonaro. Ele citou obras como o TIC Campinas, o túnel Santos-Guarujá e o Rodoanel Norte.

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“O governo do presidente Lula trata os governos de estados e dos municípios de forma republicana”, afirmou Mercadante, acrescentando que alguns governadores “não reconhecem publicamente o esforço do governo Lula” e patrocinam uma “narrativa de polarização típica da extrema direita”. Ele ainda disse que Flávio Bolsonaro parece desconhecer a omissão do próprio pai no financiamento a São Paulo.

Disputa de paternidade das obras

Essa briga se insere em uma disputa mais ampla pela paternidade de grandes obras em São Paulo, que deve marcar a campanha eleitoral. Lula e Haddad têm destacado que projetos como o túnel Santos-Guarujá e as extensões do metrô só saíram graças a financiamentos federais. Haddad apareceu em propaganda partidária acusando Tarcísio de omitir a origem dos recursos.

“Bilhões investidos pelo governo Lula, repasses diretos, financiamentos via BNDES, garantias para empréstimos e a renegociação da dívida de São Paulo, que eu mesmo conduzi como ministro da Fazenda, viabilizando essas obras, mas isso eles não revelam”, disse Haddad. Aliados de Lula, como Márcio França, classificam Tarcísio de “ingrato” e obcecado pela presidência.