Onça-pintada é flagrada esguichando urina em árvore no Pantanal
Onça esguicha urina em árvore no Pantanal; veja vídeo

Um flagrante desafiador e muito nítido chamou a atenção no Pantanal sul-mato-grossense: uma onça-pintada (Panthera onca) foi registrada em vídeo no exato momento em que esguichava urina no tronco de uma árvore. A cena, captada durante a noite na Fazenda Caiman, no município de Miranda (MS), revela um importante comportamento de comunicação química e marcação de território do maior felino das Américas.

O registro foi feito pelo guia de campo e fotógrafo de natureza Fagner Roque de Almeida, enquanto acompanhava um grupo de turistas em um safári. O felino filmado é um macho conhecido na região como "Formoso". Segundo Fagner, o animal costuma se aproximar dos veículos por estar habituado à presença humana. A habituação é um processo ético e natural em que a onça passa a reconhecer os carros e as pessoas como algo neutro, sem associá-los a alimento ou qualquer tipo de ameaça à sua rotina selvagem.

"Foi um momento de profunda emoção e satisfação", relata o fotógrafo. "Registrar uma cena tão rara em vida livre é um privilégio único, que reforça ainda mais minha conexão com a natureza e o propósito do meu trabalho".

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Rede de comunicação invisível

Do ponto de vista biológico, o ato de esguichar urina nas árvores tem uma função ecológica e territorial vital para a espécie. Lucas Souza, guia em reserva ecológica e estudante de biologia com ampla experiência no acompanhamento de grandes felinos, explica que o comportamento vai muito além da simples eliminação de resíduos.

"A onça-pintada utiliza o esguicho de urina como uma importante forma de comunicação química", detalha Lucas. "A urina contém substâncias capazes de transmitir informações sobre a identidade do indivíduo, sexo, condição reprodutiva e presença recente na área".

De acordo com o especialista, ao depositar essas marcas olfativas em troncos e locais estratégicos das trilhas, o felino estabelece uma espécie de "rede de comunicação invisível", facilmente interpretada por outras onças que transitam pelo mesmo local. Além do esguicho, a espécie também deixa recados químicos através de glândulas específicas localizadas nas patas.

"Dessa forma, os indivíduos conseguem obter informações uns sobre os outros sem a necessidade de encontros diretos, reduzindo conflitos e ajudando na organização do espaço utilizado pela espécie", afirma o guia ecológico.

Embora as marcas e os esguichos sejam relativamente comuns de serem detectados em estudos com armadilhas fotográficas (câmeras trap), Lucas ressalta que conseguir capturar o momento exato dessa ação em vídeo, acompanhado por observadores, é considerado um registro altamente valioso para os pesquisadores.

Predador de topo e o equilíbrio ecológico

Além de seu imenso valor científico, o flagrante de "Formoso" levanta uma bandeira urgente sobre a conservação ambiental. Como um predador de topo de cadeia, a onça-pintada regula o ecossistema e sua presença indica que a biodiversidade local está saudável.

"Ao observar uma onça-pintada em seu habitat natural, sinto um forte senso de responsabilidade e dever cumprido", reflete Fagner. "Preservar a onça-pintada é preservar todo o ecossistema ao seu redor. Ela desempenha um papel essencial no controle das populações de outras espécies, garantindo a saúde e o equilíbrio da natureza".

Para o fotógrafo, a natureza não é apenas um cenário, mas a base de toda a existência. O desaparecimento de uma única espécie pode comprometer funções inteiras dentro do sistema que sustenta a vida na Terra. "Através do meu trabalho, busco evidenciar a imensa riqueza de biodiversidade do Pantanal, um dos biomas mais exuberantes do planeta, e destacar a imponência do maior felino das Américas", conclui Fagner. "Mais do que registros, cada imagem é um convite à valorização e à preservação desse patrimônio natural único".

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