Estudante de 17 anos descobre sítio arqueológico inédito na BA
Estudante descobre sítio arqueológico inédito na BA

Uma memória de infância compartilhada com um professor revelou um capítulo inédito da história do semiárido baiano. O estudante Cassiano Santos da Conceição, de 17 anos, conduziu pesquisadores do Instituto Federal Baiano (IF Baiano) a um sítio arqueológico nunca antes registrado em Xique-Xique, no norte da Bahia. O local, batizado de Olhos D'Água, contém pinturas rupestres, um polidor de pedra usado por povos antigos na fabricação de ferramentas e fragmentos de cerâmica pré-colonial. A área foi reconhecida e agora integra o Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Da lembrança à expedição científica

Morador da comunidade do Rumo, onde o sítio está localizado, Cassiano conheceu o lugar em 2020, durante um passeio com o pai às margens de um córrego chamado Olhos D'Água. Anos depois, já aluno do ensino médio do IF Baiano, ele relembrou a visita ao participar do Projeto Assuruá, iniciativa dedicada à identificação e estudo de sítios arqueológicos na região. O relato despertou a curiosidade dos pesquisadores, que organizaram uma expedição ao local.

"Foi muito gratificante ter contribuído para o projeto. Consegui mostrar as coisas boas que tem em Xique-Xique. Me sinto muito feliz por ter ajudado a fazer esse registro. A partir de agora, o sítio vai ter o devido reconhecimento e o devido valor", disse o estudante ao g1. Cassiano afirmou que a experiência reforçou seu interesse pela ciência: "Quero entrar na universidade e cursar Agronomia. A ciência e a pesquisa abrem portas para a vida. Queria muito que outros jovens aproveitassem a oportunidade de participar desse tipo de projeto."

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Surpresa no semiárido: um oásis arqueológico

A equipe do Projeto Assuruá chegou ao local em abril deste ano, esperando encontrar apenas as pinturas mencionadas pelo estudante. O que encontraram surpreendeu os pesquisadores. Segundo o professor Romeu Leite, coordenador do projeto, a região sequer aparecia nos registros arqueológicos conhecidos. "É uma região onde a gente desconhecia a existência de sítios arqueológicos, tanto pelo cadastro nacional quanto pela nossa experiência. A gente também não imaginava que naquela serra de baixa altitude havia uma nascente de água. Esses povos habitavam onde tinham água e alimento. Foi uma surpresa."

O cenário também chamou atenção. "É um local muito bonito, diferente. É uma espécie de oásis. Xique-Xique está no semiárido baiano e, além do Rio São Francisco, não temos grandes córregos de água. Encontrar uma nascente com água cristalina e pinturas rupestres que a gente desconhecia foi realmente muito emocionante", acrescentou. A vegetação da área difere da paisagem predominante na região, e os afloramentos rochosos ofereciam abrigo para antigos grupos humanos.

Pinturas, ferramentas e cerâmica: um sítio completo

Durante a primeira visita, os pesquisadores identificaram pinturas rupestres da chamada Tradição São Francisco, caracterizadas por figuras humanas, representações de animais e desenhos geométricos. Algumas estavam tão desgastadas pelo tempo que precisaram ser analisadas com auxílio de um aplicativo capaz de destacar vestígios dos pigmentos originais. Além das pinturas, foi encontrado um polidor — uma estrutura escavada naturalmente na rocha, usada por povos antigos para fabricar ferramentas de pedra.

A surpresa aumentou em uma segunda expedição. Ao seguir por uma trilha diferente, a equipe localizou fragmentos de cerâmica. "Com essa cerâmica, a gente pode conseguir estimar quais eram os povos que habitavam a região e qual era a tradição deles", explicou Romeu Leite. Apesar dos achados, ainda não é possível determinar quais grupos ocuparam o local. "A gente ainda não consegue dizer qual povo habitava o sítio. Será preciso aprofundar os estudos, até porque houve uma sucessão de povos na região ao longo de centenas ou milhares de anos."

Para o pesquisador, a combinação de diferentes vestígios torna o sítio especialmente relevante. "É um sítio bem completo: tem pinturas, polidor e cerâmicas. Tudo isso em um espaço que não passa de um quilômetro."

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Preservação e reconhecimento

As pinturas rupestres apresentam sinais de desgaste por estarem expostas ao sol e à chuva, o que acende um alerta para a conservação do patrimônio. Segundo Romeu Leite, o registro oficial do sítio é um passo importante para garantir que ele possa ser estudado e preservado no futuro. "A catalogação e o registro fotográfico já garantem um estudo inicial sobre a caracterização do sítio para que outros profissionais também possam pesquisá-lo."

Ele também destacou o envolvimento da população local na preservação da área. "É muito interessante perceber que a população tem valorizado e conservado o local. Se as pessoas desconhecem a importância de um sítio arqueológico, acabam não preservando. Ele talvez não seja espetacular do ponto de vista arqueológico, mas é um sítio completo e está mobilizando a população da cidade. Várias pessoas param a gente na rua ou comentam nas redes sociais."

O sítio Olhos D'Água agora integra o mapa arqueológico nacional e poderá ser alvo de novos estudos nos próximos anos. A descoberta evidencia como a ciência pode nascer da observação e da curiosidade de quem vive no território. Neste caso, a lembrança de uma visita em família feita por um estudante acabou revelando um patrimônio histórico que permanecia desconhecido.