Comunidades do Rio decoram ruas para a Copa em mutirão coletivo
Comunidades do Rio decoram ruas para a Copa do Mundo

Enquanto o Brasil inteiro faz a contagem regressiva para a Copa do Mundo, que começa em apenas 11 dias, algumas ruas das comunidades do Rio de Janeiro já ganham novas cores. Moradores da Rocinha, do Complexo da Maré, da Providência e do Morro do Pinto se organizaram para pintar o chão, pendurar bandeirinhas e transformar becos e vielas em espaços de encontro, memória e celebração coletiva.

Mobilização comunitária que atravessa gerações

Mais do que uma preparação para acompanhar os jogos da seleção brasileira, a tradição de decorar as ruas durante a Copa representa um momento de mobilização comunitária que atravessa gerações. Crianças, jovens, idosos, artistas, comerciantes e lideranças locais participam dos mutirões que ajudam a fortalecer o sentimento de pertencimento e o orgulho de viver na comunidade.

— A cada quatro anos, moradores se mobilizam para transformar as ruas em um grande cenário de celebração popular, fortalecendo o sentimento de união e orgulho de ser Rocinha — afirma João Bosco, presidente da Associação de Moradores da Rocinha.

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Para Erik Almeida, coordenador do Instituto Maré Mais, responsável pela mobilização no Complexo da Maré, a iniciativa busca recuperar uma tradição que marcou a história das comunidades cariocas. — A Copa sempre foi um momento de união, alegria e pertencimento, e sentimos que era hora de reacender esse sentimento coletivo — destaca.

Na Providência, a presidente da Associação Pró-Melhoramento da Favela da Providência, Gisele Dias Soares, ressalta que o objetivo é fortalecer a cultura popular e aproximar as novas gerações de uma prática que faz parte da memória coletiva da comunidade. — Esse movimento une arte, memória, identidade cultural e convivência comunitária — afirma.

Via Ápia ganha novas cores na Rocinha

Na Rocinha, a principal via comercial da comunidade foi tomada por tons de verde, amarelo, azul e branco. A pintura da Via Ápia foi realizada por um mutirão que reuniu moradores, artistas, voluntários e parceiros, entre eles a Associação de Moradores da Rocinha, a Coral Tintas e a Favela Digital. Com cerca de 200 metros de extensão, a Via Ápia é uma das áreas mais movimentadas da favela, concentrando lojas, barracas de alimentação e intenso fluxo de moradores e visitantes. A proposta de revitalizar o espaço para a Copa começou a ser construída ainda em 2025 e ganhou forma por meio da mobilização coletiva da comunidade.

Segundo João Bosco, as pinturas e ornamentações representam muito mais do que a paixão pelo futebol. — Representam identidade cultural, alegria, resistência, pertencimento e esperança. É uma forma da comunidade demonstrar sua força cultural e mostrar ao mundo a potência da Rocinha — afirma.

Entre os voluntários que participaram da ação está o vigilante Sandro Pereira, de 45 anos. Para ele, a decoração das ruas reforça a capacidade da favela de produzir beleza e união. — Quando o vizinho, a tia, as crianças e os mais velhos se juntam para pintar, a gente lembra que favela é comunidade de verdade. Dá orgulho ver que, mesmo com pouco, a gente faz bonito e vira notícia boa — diz.

Sandro também lembra das Copas passadas como momentos de encontro coletivo. Entre as recordações mais marcantes está o Mundial de 1994, quando moradores se reuniram em frente a um telão improvisado para acompanhar os jogos da Seleção Brasileira.

A grafiteira e arte-educadora Maria Luiza de Lima, conhecida como Malu Vibe, destaca que a tradição acompanhou sua trajetória desde a infância. — É um momento em que diferentes gerações se unem pelo cuidado com o território. A Copa mostra a força da comunidade, nossa união e a potência que existe quando as pessoas se juntam em prol do bem-estar coletivo — declarou.

Na Maré, mutirão resgata memórias afetivas

No Complexo da Maré, a mobilização foi organizada pelo Instituto Maré Mais e começou no dia 23 de maio, na Rua Carmela Dutra, no Parque Maré. Enquanto moradores pintavam o asfalto, vizinhos se reuniam para confeccionar bandeirinhas, preparar churrasco e ajudar na organização das atividades. A ação contou com a participação de artistas urbanos, comerciantes locais e dezenas de voluntários da comunidade.

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Segundo Erik Almeida, o projeto nasceu da vontade de recuperar uma tradição que perdeu força em parte das cidades brasileiras, mas que continua viva na memória de muitos moradores das favelas. — As pinturas, bandeiras e enfeites simbolizam esperança, união, identidade cultural e orgulho da comunidade. É uma forma de mostrar que a favela também produz arte, cultura e beleza — disse.

Além do aspecto cultural, Erik destaca que a movimentação da Copa também gera impactos econômicos positivos para pequenos comerciantes, ambulantes, bares e trabalhadores locais.

A bombeira civil Jéssica Pereira, de 34 anos, afirma que participar da pintura significa resgatar lembranças da infância e fortalecer os vínculos entre vizinhos. — Na favela existe muita coisa boa, porém não é tão comentada. Esse tipo de mobilização fortalece o sentimento de pertencimento e orgulho de morar aqui — falou.

Moradora da Maré, Nathalya Guimarães acredita que a iniciativa ajuda a romper estereótipos sobre os territórios populares. — A favela frequentemente é retratada pela ótica da escassez, mas a verdade é que nós somos pura potência, cor e criatividade. Quando o morador vê sua própria rua virar uma obra de arte, o peito enche de orgulho — afirmou.

Providência aposta na arte para fortalecer o pertencimento

Na região central do Rio, a Providência também iniciou seus preparativos para a Copa. No dia 24 de maio, moradores começaram a pintura das ruas nas imediações da Ladeira do Barroso, na Gamboa. A atividade teve início às 7h da manhã e seguiu até a noite, reunindo crianças, jovens, idosos, artistas e lideranças comunitárias.

A mobilização foi organizada pela Associação Pró-Melhoramento da Favela da Providência em parceria com o Instituto A Defensora, coletivos culturais e parceiros sociais. A expectativa é expandir a iniciativa para outras cinco localidades da comunidade.

Segundo Gisele Dias Soares, presidente da associação, a proposta busca preservar uma tradição histórica da favela e fortalecer o vínculo dos moradores com o território. — A Providência já possui uma tradição de decoração das ruas em períodos de Copa. Nosso objetivo é fortalecer essa cultura popular, envolvendo principalmente crianças e jovens nesse processo coletivo — explicou.

De acordo com ela, a construção da ação acontece por meio de reuniões abertas, mobilização de voluntários e arrecadação de materiais. O trabalho coletivo, afirma, ajuda a estimular o cuidado com os espaços comuns e cria referências positivas para as novas gerações. — As pessoas passam a enxergar o território com mais pertencimento e cuidado. As crianças e os jovens participam diretamente das ações, fortalecendo a memória afetiva da comunidade — afirmou.

No Morro do Pinto, tradição é resgatada para criar memórias

No Morro do Pinto, na região do Santo Cristo, a preparação para a Copa ganhou as cores da infância e da convivência comunitária. No dia 23 de maio, o Centro Cultural Capiberibe 27 reuniu moradores, artistas, comerciantes e famílias para pintar a Rua Capiberibe e resgatar uma tradição que marcou gerações de brasileiros: as ruas decoradas para acompanhar o Mundial.

A iniciativa nasceu do desejo de recuperar um costume que, aos poucos, foi desaparecendo de muitos bairros e comunidades. Mais do que ornamentar a rua para a Copa, a proposta buscou proporcionar às crianças a experiência de participar de um mutirão coletivo, conviver com os vizinhos e construir novas memórias afetivas ligadas ao território.

Segundo Nathalia Guaglini, uma das responsáveis pelo Centro Cultural Capiberibe 27, a preparação da rua acabou se tornando um momento de reencontro entre moradores de diferentes idades. — Mais do que a decoração em si, o processo despertou novamente o prazer de ocupar a rua, conversar, conviver e construir alguma coisa juntos — disse.

A mobilização contou com apoio de comerciantes locais, que contribuíram com tintas, alimentação e infraestrutura para a realização da atividade. Moradores também participaram espontaneamente da organização, ajudando desde a pintura até a distribuição de alimentos para as crianças.

Morador da região há cerca de um ano, o advogado Vitor Capoce, de 31 anos, acompanhou a ação ao lado do filho de cinco anos. Para ele, a iniciativa permitiu que a criança vivenciasse uma tradição que já não fazia parte da realidade de muitos bairros da cidade. — Eu morava em Niterói e lá o pessoal não tinha mais o costume de pintar a rua. Chegar aqui e ver meu filho vivendo essa experiência é muito bom — conta.

As cores que tomam conta das ruas da Rocinha, da Maré, da Providência e do Morro do Pinto mostram que, para muitos moradores, o maior significado dessa tradição está além do futebol. Entre tintas, bandeiras e mutirões, as comunidades reafirmam sua capacidade de construir coletivamente espaços de convivência, preservar memórias e celebrar a própria identidade.