Surto de Ebola no Congo expõe fragilidades da preparação global para pandemias
Surto de Ebola expõe fragilidades na preparação global

O surto de Ebola no Congo dificilmente provocará a próxima pandemia. A cepa Bundibugyo não se transmite pelo ar, espalha-se menos rapidamente que a covid e mata com eficiência brutal demais para viajar com a mesma facilidade de um coronavírus respiratório. Ainda assim, o surto deveria inquietar governos muito além da África Central.

Vírus circulou quase invisível

Por semanas, o vírus circulou quase invisível em regiões frágeis do leste congolês. Não havia vacina para a cepa. Faltavam testes rápidos. Hospitais foram atacados por moradores desconfiados de médicos e autoridades. Uganda já confirmou casos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) elevou o alerta internacional. Tudo isso só um punhado de anos após a maior catástrofe sanitária do século.

Avanços científicos pós-covid

Não que o mundo tenha aprendido pouco com a covid. Em vários aspectos, aprendeu muito. A velocidade científica na pandemia foi extraordinária. O sequenciamento do vírus ocorreu em dias. Vacinas foram desenvolvidas em tempo recorde. Plataformas genéticas, vigilância genômica e redes internacionais de pesquisa avançaram numa escala inimaginável no início de 2020.

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Mas esses “milagres” não surgiram espontaneamente. Foram fruto de décadas de pesquisa, financiamento contínuo, protocolos previamente testados, capacidade industrial acumulada e redes de vigilância construídas muito antes de o coronavírus aparecer. O mundo saiu da covid cientificamente mais capaz, mas politicamente mais fragmentado. A ajuda internacional para a saúde caiu drasticamente no ano passado, segundo a OCDE. Programas de vigilância foram reduzidos. O tratado pandêmico pactuado na OMS segue travado em disputas sobre patentes, compartilhamento de dados e acesso a vacinas. Os EUA, que por décadas lideraram boa parte da arquitetura internacional de saúde pública, recuaram para uma lógica mais transacional e desconfiada do multilateralismo. Em vários países, a própria ideia de saúde pública virou campo de guerra ideológica.

Paradoxo da preparação

O paradoxo é que a humanidade talvez nunca tenha compreendido tão bem os mecanismos biológicos das pandemias, mas parece menos disposta a sustentar politicamente os instrumentos necessários para evitá-las. Vigilância epidemiológica, treinamento, estoques estratégicos, laboratórios, redes de testes clínicos e capacidade produtiva raramente rendem dividendos eleitorais enquanto funcionam. Custam caro, operam silenciosamente e parecem exagerados em tempos normais. A preparação que salva vidas quase sempre é invisível – até o momento em que falha.

Fragilidades expostas pelo Ebola

O surto de Ebola expõe precisamente essas fragilidades. O vírus avançou em regiões marcadas por conflito armado, baixa presença estatal e profunda desconfiança social. Um terço dos moradores de áreas afetadas nem sequer acredita que a doença exista, segundo uma pesquisa da ONG ActionAid. Profissionais de saúde relatam resistência a protocolos funerários e ataques a centros de tratamento. Nenhuma plataforma genômica substitui equipes no terreno, hospitais minimamente funcionais ou confiança pública. Ainda que seja baixo para países como o Brasil, o risco pode aumentar na falta de vigilância aeroportuária, de protocolos de detecção e de preparação laboratorial.

Ameaças pandêmicas persistentes

As ameaças pandêmicas não desapareceram com o fim das restrições da covid. Ao contrário: a pressão humana sobre florestas, a expansão urbana, a circulação global intensa e o avanço sobre habitats de animais ampliam continuamente as oportunidades para novos “saltos” zoonóticos. Há milhões de vírus ainda desconhecidos em mamíferos e aves. A maioria jamais afetará humanos, mas alguns provavelmente já circulam silenciosamente em algum lugar do planeta.

Escolhas políticas determinam o futuro

Surtos são inevitáveis. Pandemias, não. Entre uma coisa e outra existem escolhas políticas, capacidade institucional e tempo de reação. As primeiras semanas de um surto costumam decidir o destino dos meses seguintes. Foi assim com a covid. Está sendo assim agora no Congo.

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O maior risco talvez não seja a próxima “doença X”. É a tentação de acreditar que o trauma recente bastou para nos deixar automaticamente preparados. A história das epidemias sugere o contrário. O velho ciclo de pânico e negligência produz seus efeitos mais virulentos quando a memória da última tragédia começa a desaparecer.