A profecia do Caboclo Piatã: as consequências do desmatamento
Profecia do Caboclo Piatã sobre o desmatamento

Desde a infância, Piatã observava o avô Muruá conversar com o vento, as nuvens, a chuva, o Sol, a Lua e as estrelas. Escondido entre as árvores, o pequeno indígena não compreendia aquelas palavras sussurradas ao céu, mas sentia que havia um significado profundo naqueles gestos.

A herança do pajé

Seu pai, Cobra Coral, seguia o mesmo ritual. Em certos dias, fitava o horizonte por horas; em outros, enterrava as mãos na terra, fechava os olhos e parecia ouvir a respiração da floresta. Para Piatã, tudo era um grande mistério. Quando Muruá morreu, Cobra Coral assumiu sozinho a missão de dialogar com os elementos naturais. Anos depois, Piatã descobriu que aquelas conversas não eram magia, mas um conhecimento ancestral dos pajés, transmitido por gerações para proteger a tribo, orientar caçadas, indicar o tempo de plantio e colheita e prevenir tempestades e secas.

O chamado de Cobra Coral

Já idoso, sentindo que sua caminhada chegava ao fim, Cobra Coral chamou o filho à beira da fogueira. — Chegou a sua hora, Piatã. Revelou então um segredo guardado por seus ancestrais: — Nós pertencemos à antiga linhagem dos Ederumins, homens escolhidos para falar com Yamandú, o Grande Espírito. Não somos donos da chuva, dos ventos ou do trovão. Apenas aprendemos a ouvir a linguagem da natureza. Quem respeita a Terra entende seus sinais. Quem entende pode anunciar o que está por vir.

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Naquela noite, Piatã recebeu o bastão e tornou-se o guardião das mensagens do céu e da floresta. Durante décadas, suas previsões salvaram aldeias: avisava sobre enchentes antes que os rios transbordassem, anunciava secas para que alimentos fossem armazenados, indicava a hora de plantar, pescar e até quando a chuva chegaria. Muitos acreditavam que ele fazia chover. Piatã apenas sorria: — Não sou eu quem faz a chuva. É a natureza que responde quando respeitada.

A grande profecia

Caboclo Piatã viveu até os 94 anos. Antes de partir para a Morada dos Encantados, reuniu seus discípulos e deixou sua maior profecia: "Estão arrancando os cabelos da Terra, e ela responderá com violência, porque toda violência gera outra violência." Ninguém compreendeu de imediato. Ele explicou: — Os cabelos da Terra são as florestas. Cada árvore derrubada é um fio arrancado do corpo de nossa Mãe. O homem mata a mata por ganância, envenena rios, expulsa e mata animais, e acredita que viverá sobre terra morta.

Fez uma pausa e continuou: — O calor aumentará como nunca. As chuvas virão quando não esperadas e faltarão quando necessárias. Os ventos serão mais fortes, as águas subirão, as secas serão mais longas, e o fogo caminhará pelas florestas como se estivesse vivo. Os mares adoecerão, porque tudo está ligado. Quem fere a floresta fere os rios, oceanos e o céu.

A resposta da natureza

Os discípulos perguntaram se era um castigo de Yamandú. Piatã respondeu serenamente: — Não. É a resposta da própria natureza. O homem colherá exatamente o que plantou. Antes de fechar os olhos, deixou sua última mensagem: — Ainda existe esperança. Quando o homem plantar mais do que derruba, preservar mais do que explora e respeitar mais do que domina, a Terra voltará a respirar. A natureza busca equilíbrio, não vingança. Enquanto existir uma árvore em pé, uma nascente viva e alguém disposto a ouvir o vento, Yamandú falará com a humanidade.

O legado de Piatã

Dizem os mais antigos que, nas noites de tempestade, quando os ventos mudam de direção e o cheiro da mata invade o ar, ainda se ouve a voz do velho Caboclo Piatã ecoando entre as árvores. Quando a chuva cessa, um arco-íris colore o horizonte, sinal de que Yamandú jamais abandona aqueles que respeitam a criação. O vento parece sussurrar suas últimas palavras: — Quem protege a Terra protege a si mesmo. Quem destrói a floresta apressa o próprio fim. Anama ára oîkó xe rekó resé! (Ainda há tempo para salvar a vida!) Yamandú tome'ẽ porang opavavé resé! (Que Deus abençoe a todos!)

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