Um peixe de poucos centímetros, popularmente conhecido como piaba ou lambari, pode ter um papel inesperado em uma das maiores questões ambientais do planeta. Pesquisadores descobriram que espécies de peixes nativos incorporam à própria biomassa parte do carbono derivado do metano, um dos gases de efeito estufa mais potentes. O destaque ficou com o lambari-miúdo (Psalidodon minor), que apresentou os maiores índices desse processo em um reservatório do Paraná.
O estudo
A pesquisa foi realizada no reservatório do Passaúna, na Região Metropolitana de Curitiba, e publicada na revista científica Water Biology and Security. Os cientistas analisaram 11 espécies de peixes e encontraram carbono derivado do metano em todas elas. A proporção variou entre aproximadamente 5% e 16% da biomassa dos animais.
O metano é produzido durante a decomposição da matéria orgânica em ambientes com pouco oxigênio, como os sedimentos no fundo dos reservatórios. Essas estruturas artificiais têm papel importante no ciclo global do carbono e podem contribuir significativamente para as emissões desse gás. No entanto, nem todo o metano produzido chega à atmosfera: parte é consumida por bactérias especializadas, conhecidas como metanotróficas, que entram na cadeia alimentar por meio de pequenos organismos aquáticos e, posteriormente, chegam aos peixes.
O lambari-miúdo em destaque
O maior valor de carbono derivado do metano apareceu justamente no lambari-miúdo. Em média, 15,68% da biomassa da espécie era formada por esse carbono. Em alguns indivíduos, o percentual ultrapassou 20%. Segundo os pesquisadores, o resultado reforça a importância dos peixes neotropicais na dinâmica desse gás de efeito estufa.
Os cientistas também investigaram o papel de espécies nativas e exóticas nesse processo. Entre elas está o black bass (Micropterus salmoides), peixe originário da América do Norte e considerado uma das espécies invasoras mais bem-sucedidas do mundo. A pesquisa identificou que o predador consome com frequência o lambari-miúdo, justamente a espécie que mais incorpora carbono derivado do metano. Para os autores, essa relação merece atenção porque alterações nas populações desse pequeno peixe podem afetar a forma como o carbono circula dentro da cadeia alimentar.
Importância ecológica
Embora invisível para quem observa a superfície da água, o fenômeno ajuda a mostrar como biodiversidade e clima estão conectados. Ao incorporar parte do carbono derivado do metano à biomassa dos organismos aquáticos, a cadeia alimentar passa a armazenar temporariamente esse carbono dentro do ecossistema. Compreender essas interações pode contribuir para estratégias de conservação capazes de manter processos naturais importantes para o funcionamento dos reservatórios e para o ciclo global do carbono.
Características do lambari-miúdo
- Nome popular: Lambari-miúdo
- Nome científico: Psalidodon minor
- Grupo: Peixe de água doce da ordem Characiformes
- Família: Acestrorhamphidae (anteriormente incluída em Characidae)
- Distribuição: Espécie nativa da região Sul do Brasil, registrada na bacia do rio Iguaçu, onde está localizado o reservatório do Passaúna, no Paraná.
- Habitat: Ambientes de água doce, incluindo rios, riachos e reservatórios.
- Alimentação: Classificada como mesopredadora, com forte associação com organismos aquáticos da base da cadeia alimentar, o que ajuda a explicar sua elevada incorporação de carbono derivado do metano.



