Parque Morro do Diabo completa 12 anos sem incêndios e preserva onças
Parque Morro do Diabo: 12 anos sem fogo e onças preservadas

Em meio ao aumento de incêndios no oeste paulista, o Parque Estadual Morro do Diabo, localizado em Teodoro Sampaio (SP), destaca-se como exemplo de preservação ambiental. Há mais de dez anos, a unidade de conservação não registra focos de fogo em sua área de mata. Nesta quinta-feira (5), celebra-se o Dia Mundial do Meio Ambiente, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1972, com o objetivo de incentivar ações de conscientização e preservação dos recursos naturais em todo o mundo, conforme o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Incêndios na região contrastam com a preservação do parque

No Oeste Paulista, o número crescente de incêndios em vegetação preocupa. Entre janeiro e 24 de maio deste ano, foram registradas 738 queimadas em áreas de vegetação na região de Presidente Prudente, segundo o Corpo de Bombeiros. Em contrapartida, o Parque Estadual Morro do Diabo é considerado “um baú precioso”, sendo o maior remanescente de Mata Atlântica do interior de São Paulo e símbolo de preservação. Apesar da ausência de focos de incêndio dentro do parque, a região ainda convive com queimadas frequentes em áreas de cana e pastagem. “A comunicação rápida com proprietários rurais e a integração com Defesa Civil e usinas têm sido fundamentais para evitar que o fogo atinja a reserva”, afirma o gestor do parque, Eriqui Inazaki.

Estratégias de prevenção e proteção da fauna

O último incêndio no parque ocorreu em 2012, conforme o gestor. O apoio da comunidade é um importante aliado para a proteção da fauna e flora do local. As fiscalizações contam com o apoio da Polícia Militar Ambiental e da Polícia Militar Rodoviária. “Aqui, a gente perde uma árvore centenária, uma onça-pintada, são valores imensuráveis. Quem perde é a humanidade, não é só o parque, só a cidade. Somos todos nós e as futuras gerações. Esse é o sentimento mesmo: cuidar de um baú muito precioso para que isso perdure por muitos anos”, reforça Inazaki.

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A preservação permite que animais silvestres estejam cada vez mais presentes, como as onças-pintadas (Panthera onca) avistadas pelo vigilante Rodrigo Coelho Dezotti no Morro do Diabo, no início deste ano. “É um privilégio a gente estar trabalhando em um ambiente como esse e viver uma experiência dessa. É muito gratificante”, destaca. Quando ele e o colega notaram a presença do felino, Rodrigo controlou a lancha com mais cuidado e pediu ao parceiro que registrasse em vídeo a presença da onça. Esta não foi a primeira vez que o vigilante encontrou o felino. Outras espécies também já chamaram sua atenção, como antas e veados. “É uma experiência única. Aqui no parque é um privilégio a gente estar trabalhando. A gente se depara não só com a onça-pintada, mas com outros animais. Já vimos e filmamos não só a onça, mas antas, veados, manadas de porco, espécies de pássaros. Tem várias outras espécies que temos o privilégio de ver e filmar. É grandioso”, afirma.

Abrigo de espécies ameaçadas

Além das onças-pintadas, o local abriga 1,3 mil indivíduos da espécie mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), animal que já foi considerado extinto. Atualmente, o Parque Estadual do Morro do Diabo abriga a maior população livre da espécie no mundo. Gabriela Cabral Rezende, coordenadora do Programa de Conservação do Mico-leão-preto do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), explicou ao g1 que a principal ameaça à espécie é a fragmentação das florestas. Segundo ela, o processo reduziu a cobertura vegetal a pequenos remanescentes isolados, o que compromete a circulação dos animais e resultou na diminuição e no isolamento das populações de mico-leão-preto nesses fragmentos. “As populações pequenas têm uma maior probabilidade de desaparecer, de se extinguir. Então, a gente trabalha no IPÊ com duas estratégias para garantir a sobrevivência dessas populações”, diz Gabriela.

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Translocação e restauração florestal

Uma das estratégias de conservação é a restauração de florestas, a partir do plantio de corredores florestais que visam reconectar as áreas fragmentadas. No entanto, a restauração leva tempo até atingir uma estrutura capaz de sustentar uma população de micos e, então, entra a segunda ação: o manejo de populações, também chamado de translocação. A pesquisadora explica que a translocação consiste na retirada de um grupo de um fragmento com população maior para outro com menos indivíduos, com o objetivo de reforçar o número de animais e ampliar a diversidade genética. “A gente precisa garantir que a população tenha uma maior diversidade dessa genética, porque é isso que vai fazer com que elas possam se adaptar a grandes mudanças ao longo do tempo”, conta.

A estratégia já está dando resultado: no final de abril, o IPÊ divulgou os primeiros meses de um filhote de mico-leão-preto acompanhado por eles a partir de câmeras instaladas na Mata Atlântica. Estes registros são considerados inéditos para a conservação da biodiversidade, segundo o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), ao mostrar a rotina e desenvolvimento do filhote de até dois meses de vida e de um jovem mico-leão-preto, na fase de quatro a 12 meses. “É um indicador muito positivo da saúde desse ambiente. Registrar o desenvolvimento desse filhote, em que eles estão muito suscetíveis à predação, à morte por diversas causas, e a gente ter registrado que eles passaram por essa fase do desenvolvimento e chegaram a uma idade um pouco mais avançada também é um outro indicador bastante positivo”, descreve Gabriela.