Na Terra Indígena Jaraguá, nos arredores de São Paulo, o líder indígena e meliponicultor Marcio Karai, de 42 anos, dedica-se diariamente à criação de 13 variedades de abelhas nativas sem ferrão, incluindo as espécies Mirim e Jataí. Ele transfere colônias para novas caixas de madeira, garantindo a sobrevivência desses insetos que considera sagrados para sua comunidade Guarani e essenciais para o equilíbrio ambiental.
Preocupação com o desaparecimento das espécies
Karai expressa a inquietação dos anciões de sua aldeia: “Os anciões estão muito preocupados com o desaparecimento dessas espécies nativas que eles sempre manusearam, que eles sempre tiveram à disposição e hoje está cada vez mais escassa”. Embora as abelhas Mirim e outras que ele cuida não estejam classificadas como ameaçadas, as mudanças nos ecossistemas podem afetá-las no futuro.
Uma avaliação intergovernamental de 2016 sobre biodiversidade aponta que polinizadores silvestres, como as abelhas, estão ameaçados em muitas regiões devido a mudanças climáticas, desmatamento e pesticidas. Os polinizadores animais são responsáveis pela reprodução de 90% das plantas com flores silvestres e 75% das culturas alimentares humanas dependem, ao menos em parte, da polinização.
Meliponicultura: tradição e resistência
A meliponicultura, manejo de abelhas sem ferrão, difere da apicultura tradicional. Produz menos mel, porém mais valorizado, e as abelhas são menores e não agressivas, ao contrário da abelha-melífera-ocidental. Cientistas identificaram cerca de 300 espécies de abelhas sem ferrão no Brasil, mas outras podem já ter sido extintas devido à expansão agrícola, alerta Osmar Malaspina, coordenador de um grupo de pesquisa em ecotoxicologia e conservação de abelhas da Universidade Estadual Paulista.
Na prática, Karai abre uma colmeia atual e seleciona material das câmaras de ovos e sacos de mel, com feromônios, para preencher um pequeno cubo que servirá de nova morada. As abelhas saem em revoada silenciosa, formando uma nuvem frenética. Ele explica que sua comunidade se considera “os guardiões dessas espécies tão importantes para o nosso ecossistema, para a nossa vida e para a futura geração”.
Papel cerimonial das abelhas
O mel e a cera produzidos pelas abelhas sem ferrão são fundamentais nos rituais religiosos Guarani. Durante um ritual, velas de cera de abelha, feitas pelas mulheres da comunidade, cintilam no altar. Karai explica: “É através do canto que a voz do povo Guarani chega ao (nosso deus) Nhanderu. É a vela e a fumaça da cera sendo queimada levando esse canto... subindo ao céu de Nhanderu”.
Karai aprendeu a arte de cuidar das abelhas com seu pai e avô. Ele espera que seu filho mais velho siga seus passos, mas teme que as futuras gerações prefiram empregos com salários mais altos a essa tradição.
Resistência e identidade
De todas as espécies que protege, Karai se identifica mais com a Jataí, que prospera apesar das ameaças, graças à proteção espiritual e ao trabalho de conservação dos Guarani. “Por mais que o não-indígena tenha tentado nos eliminar, a gente resistiu. Entendemos que a Jataí vem também nesse mesmo processo de resistência”, declara.



