Fotógrafo acreano vence prêmio nacional com registros da crise climática
Fotógrafo acreano vence prêmio nacional com registros climáticos

O fotógrafo acreano Paulo Henrique da Costa Silva, de 31 anos, conquistou o 1º lugar na categoria fotojornalismo do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação em Defesa do Meio Ambiente, Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais. O resultado foi anunciado durante cerimônia em Brasília (DF).

Projeto vencedor

Morador de Cruzeiro do Sul, interior do Acre, Paulo foi premiado com o Projeto Memória Visual do Vale do Juruá: A Amazônia Acreana em Tempos Extremos Climáticos, que reúne registros fotográficos dos impactos das mudanças climáticas na região do Vale do Juruá. A premiação homenageou o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira, assassinados em junho de 2022 no Vale do Javari, no Amazonas, durante atividades de proteção ambiental e dos povos indígenas.

Uma das imagens do projeto, capturada entre 2024 e 2026, mostra crianças em meio às queimadas no período de estiagem. O trabalho vencedor documenta quatro ciclos de eventos extremos no Vale do Juruá: seca, fumaça, cheia e queimadas.

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Registros impactantes

Outro registro mostra a cheia do Rio Juruá cobrindo a copa de uma árvore, além de efeitos como um sofá destruído na água e uma cozinha inundada. As fotografias, produzidas ao longo dos últimos anos, retratam situações vividas por moradores diante das mudanças climáticas. As imagens da enchente em Cruzeiro do Sul são deste ano, quando mais de 28 mil pessoas foram afetadas na segunda maior cidade do estado.

Cerimônia e premiação

Ao g1, Paulo Henrique disse que não participou presencialmente da cerimônia porque não teve tempo para viajar a Brasília. O aviso de que estava entre os finalistas chegou apenas dois dias antes do evento. “Me avisaram na terça-feira [9] e a cerimônia já era na quinta [11]. Mesmo se estivesse em Cruzeiro do Sul não daria tempo de viabilizar a viagem por causa da logística dos voos. Então, pediram para eu indicar um representante”, contou.

Com a conquista, o cruzeirense deve receber R$ 30 mil. O prêmio foi recebido presencialmente pelo amigo João Raphael Gomes, indicado pelo fotógrafo. "Estou muito feliz, grato e honrado por ter recebido esse prêmio que leva o nome de duas pessoas que perderam a vida lutando pela Amazônia e pela nossa casa. O prêmio foi lindo, acompanhei tudo pela internet e diretamente aqui da Resex Chico Mendes, onde faço um trabalho com os jovens", declarou.

Trajetória do fotógrafo

O cruzeirense é formado em engenharia agronômica e mestre em ciências ambientais pela Universidade Federal do Acre (Ufac), campus Floresta, e desenvolveu sensibilidade apurada para registrar paisagens, ecossistemas e a relação entre o homem e a natureza. “O Vale do Juruá é uma região historicamente invisibilizada. O projeto nasceu da urgência de registrar, denunciar e refletir sobre os impactos da crise climática em uma das regiões mais esquecidas da Amazônia brasileira”, afirmou.

Segundo Paulo Henrique, a proposta surgiu da necessidade de registrar os impactos ambientais enfrentados pela população e dar visibilidade a um território que costuma ficar à margem das narrativas nacionais. Ele começou a fotografar há pouco mais de dois anos e nunca havia usado uma câmera antes de abril de 2024. “Vi um vídeo de cinco minutos no YouTube explicando alguns conceitos básicos e saí para fotografar durante a enchente que estava acontecendo em Cruzeiro do Sul. Foi ali que tudo começou”, relembrou.

Herança cultural

No mesmo ano, o acreano ficou um período desempregado e pegou uma câmera antiga emprestada do Centro Eclético Passarinho Branco, religião que frequenta no município. No início de 2025, comprou a própria câmera fotográfica. Além do trabalho sobre eventos climáticos extremos, Paulo Henrique desenvolve outros projetos de longo prazo, como a série 'Tudo o que eu vivi antes do fim', que documenta a rotina dele e da mãe em uma casa com riscos estruturais, e 'Entre o Corpo e o Cipó', com registros de cerimônias de ayahuasca, umbanda e espiritismo.

"Todo esse trabalho fotográfico que faço é graças aos Orixás e minha missão é mostrar essas realidades juruaenses. O Acre existe e o Vale do Juruá também, e para mim é uma honra levar o nome do meu território", diz.

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Desafios e planos futuros

O fotógrafo pretende iniciar um novo projeto voltado ao registro das casas de farinha do Vale do Juruá. No entanto, um dos principais desafios para quem produz fotografia na Amazônia é a distância dos grandes centros culturais do país. “No campo das artes visuais e da fotografia, muita coisa acontece no Sudeste. Muitas vezes meu trabalho foi exposto em outros lugares e eu não consegui acompanhar por causa do custo das passagens. A distância geográfica ainda é uma barreira muito grande”, pontua.

De acordo com ele, a falta de formação especializada, o alto custo das passagens aéreas e as dificuldades logísticas limitam o acesso a exposições, editais e oportunidades profissionais. “Falta o Brasil enxergar a potência da Amazônia”, afirmou.

Para o fotógrafo, embora a Amazônia desperte interesse internacional, ainda falta reconhecimento dentro do próprio país. Ele defende que a população brasileira conheça melhor a história da região e valorize o papel dos povos amazônicos na formação do Brasil. “O que falta é as pessoas olharem para a história do Acre e da Amazônia e enxergarem a potência que existe aqui. Há pessoas que dedicam suas vidas para manter a floresta em pé, preservar a cultura e as tradições. Essa história precisa ser mais valorizada”, concluiu.