Super El Niño: governo libera R$1,3 bi, mas prevenção é negligenciada
El Niño: governo libera R$1,3 bi, mas prevenção é negligenciada

O governo federal liberou R$1,3 bilhão do Orçamento para o enfrentamento do Super El Niño, fenômeno que deve se intensificar no Brasil a partir de setembro, às vésperas das eleições. O evento climático, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico, deve provocar seca severa em boa parte da Amazônia e chuvas intensas na Região Sul. Segundo a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a medida busca mitigar os impactos negativos do fenômeno, que já preocupa especialistas e autoridades em diversas partes do país.

Recursos são direcionados a ações posteriores ao desastre

De acordo com a avaliação de técnicos do governo, a maior parte dos R$1,3 bilhão não será destinada a medidas preventivas, mas sim a ações emergenciais, como a compra de alimentos para a população afetada. Esse tipo de despesa é necessário depois que as tragédias ocorrem, o que evidencia uma postura reativa das autoridades diante dos eventos climáticos extremos.

Em declaração recente, Lula afirmou que “nunca antes na história do Brasil a gente esteve tão preparado para enfrentar uma possível adversidade que se apresenta pela natureza”. No entanto, a fala contrasta com os dados do Tribunal de Contas da União (TCU).

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TCU mostra desequilíbrio entre resposta e prevenção

Levantamento do TCU, analisado pelo jornal O Globo, revela que entre 2012 e 2026 a União empenhou R$24,36 bilhões em ações de resposta e recuperação de desastres ambientais, como enchentes e deslizamentos. Esse montante é quase o triplo dos R$9,62 bilhões destinados à prevenção de tragédias no mesmo período.

Os números indicam que o governo Lula não é o único a negligenciar a prevenção. Diversas gestões federais, independentemente do partido, têm falhado sistematicamente em reduzir os efeitos de eventos como calor extremo e chuvas volumosas, que se tornaram mais frequentes no Brasil e no mundo.

Despreparo é generalizado entre prefeituras e estados

A inaptidão, porém, não se restringe ao Executivo federal. Governos estaduais, prefeituras e o próprio Congresso Nacional têm deixado de adotar medidas eficazes para reduzir a letalidade e a destruição causada por fenômenos climáticos.

Em evento promovido recentemente pelo TCU, a gerente de Sustentabilidade e Resiliência da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), Cláudia Lins, apresentou dados preocupantes: apenas 25% dos municípios que responderam à pesquisa da entidade afirmaram estar preparados para enfrentar o aumento da ocorrência de eventos extremos. Ou seja, três em cada quatro municípios brasileiros, na prática, não dispõem de estrutura mínima para lidar com enchentes, secas ou ondas de calor.

Emendas parlamentares ignoram o clima

No âmbito do Congresso, a prioridade à pauta ambiental é praticamente nula. Estudo do Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), divulgado no início deste ano, aponta que apenas 0,58% das emendas individuais ao Projeto de Lei Orçamentária de 2026, aprovado em dezembro de 2025, foram destinadas a ações ligadas a meio ambiente e clima. O valor equivale a R$154 milhões em um universo de R$26,6 bilhões.

O dado é ainda mais grave considerando que o Brasil enfrentou, há pouco mais de dois anos, uma calamidade pública no Rio Grande do Sul, com enchentes históricas que deixaram centenas de mortos e prejuízos bilionários. A tragédia não se transformou em aprendizado efetivo, e o país segue repetindo o padrão de investir mais em reconstrução do que em prevenção.

Mudança exige coordenação contínua entre esferas

Especialistas ouvidos em debates sobre o tema alertam que somente um esforço real, coordenado e contínuo entre União, estados, municípios e Congresso permitirá que o Brasil enfrente a crise climática de forma a minimizar perdas humanas, de infraestrutura e de recursos financeiros. Investir apenas em ações de mitigação dos desastres, sem atacar as causas estruturais e sem ampliar a resiliência das comunidades, mostra-se insuficiente.

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A liberação de R$1,3 bilhão ocorre em um momento de alta sensibilidade política, a poucos meses das eleições municipais e estaduais. Ainda assim, os números do TCU e do Inesc sugerem que a preparação do país para eventos extremos continua distante do discurso oficial. O Super El Niño é apenas o mais recente alerta de que a natureza tem cobrado um preço cada vez mais alto pela falta de planejamento.

Para reduzir os impactos futuros, será necessário, entre outras medidas, ampliar os recursos para defesa civil, investir em infraestrutura resiliente, integrar os sistemas de alerta e destinar emendas orçamentárias para projetos ambientais. Sem essa mudança de postura, o Brasil permanecerá refém das tragédias anunciadas, repetindo os mesmos erros a cada novo evento climático.