Uma sobrevivente de abuso sexual testemunhou diante de parlamentares dos Estados Unidos que suas informações pessoais foram expostas publicamente em janeiro, quando o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) divulgou centenas de milhares de documentos relacionados ao financista Jeffrey Epstein. Agora, vítimas estão processando o governo dos EUA e o Google, buscando responsabilização pela divulgação indevida.
Depoimento no Congresso e Impacto Pessoal
Durante a audiência, a sobrevivente, que não teve o nome revelado, descreveu o medo constante e o impacto duradouro do vazamento. "Não consigo viver sem olhar por cima do ombro", disse. "Só posso imaginar o impacto de longo prazo que esse erro terá na minha vida." O depoimento foi parte de um movimento para buscar justiça e maior proteção para as vítimas.
Segundo um advogado do DOJ, um "erro humano ou técnico" contribuiu para a publicação de informações pessoais que permitiam identificar pessoas que sofreram abusos sexuais cometidos por Epstein e seus associados. O vazamento ocorreu em um dos maiores conjuntos de dados sobre o caso, com 12 partes.
Falhas na Ocultação de Dados
Uma investigação da DW, que passou meses analisando os documentos, revelou que dezenas de arquivos ainda continham nomes, rostos e endereços de e-mail, mesmo após a remoção inicial. A DW coletou mais de 800 mil arquivos da Biblioteca Epstein do DOJ, mas descobriu que mais de 500 mil arquivos foram removidos nos primeiros dias. Utilizando hashes para verificar a autenticidade dos documentos, a DW identificou que alguns arquivos foram alterados, recebendo ocultações adicionais ou informações novas.
Em um caso, uma sobrevivente descreveu em depoimento como Epstein a abusou durante anos, mas seu nome foi ocultado em toda a transcrição, exceto na última página, onde um advogado a agradeceu e mencionou seu nome, que permaneceu visível. Casos como esse mostram falhas graves no processo de ocultação do DOJ.
Análise Forense de Áudio
A DW colaborou com o Instituto Fraunhofer de Tecnologia de Mídia Digital, na Alemanha, para analisar mais de 150 arquivos de áudio, incluindo declarações de vítimas e denúncias. A pesquisadora forense Milica Gerhardt notou inconsistências nas ocultações: "Se observarmos o conteúdo desses arquivos de áudio, é possível ver que muitas informações pessoais não foram ocultadas". Em um caso, uma pessoa ligou para uma linha de denúncias, e na versão editada, seu nome era audível, enquanto o número de telefone foi encoberto por um sinal sonoro. Outra versão do mesmo arquivo continha tanto o nome completo quanto o contato direto.
Patrick Aichroth, líder do grupo MDS no Instituto Fraunhofer, afirmou: "Eles poderiam e deveriam ter feito um trabalho melhor nas ocultações. Existe uma razão para que esse tipo de material seja tratado com tanto cuidado em processos judiciais. Uma vez que informações sensíveis ou capazes de identificar alguém são divulgadas, o dano não pode ser desfeito."
Consequências e Ações Legais
O DOJ não respondeu às conclusões da DW. Em abril, o Escritório do Inspetor-Geral do DOJ anunciou uma auditoria sobre a conformidade com a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein. Sobreviventes cujas informações foram divulgadas relatam assédio, humilhação e ameaças físicas. "Enquanto os ricos e poderosos continuam protegidos por ocultações, meu nome foi exposto ao mundo", disse a sobrevivente. "As provas estão aqui. Ainda assim, aqueles que estão no poder prefeririam que morrêssemos social, emocional e fisicamente a admitir a própria cumplicidade."
Em julho, parlamentares apresentaram a Lei de Transparência dos Arquivos Epstein II, que permitiria que sobreviventes e estados processassem o DOJ por não cumprir as regras da legislação original. As vítimas agora buscam responsabilização também do Google, que hospeda conteúdo relacionado, ampliando o alcance do vazamento.



