A 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) negou, por unanimidade, os recursos do agricultor Rafael Eduardo Schemmer e da ex-companheira Natália Knak no caso do 'chá revelação de traição'. O julgamento ocorreu na última quinta-feira (30), com a manutenção da decisão que já havia rejeitado os pedidos de indenização. Os desembargadores analisaram os pedidos do agricultor, que pedia R$ 100 mil e a retirada do vídeo da internet, e da mulher, que solicitava R$ 150 mil por danos morais. O pedido de reparação feito pela tia de Natália, responsável por filmar o evento, também foi negado.
Voto do relator aplica protocolo de gênero
O relator do caso, desembargador Eugênio Facchini Neto, utilizou o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para fundamentar a decisão. Segundo o magistrado, a atitude de Natália não pode ser interpretada como um ato isolado de vingança, mas como resposta de uma mulher grávida diante da descoberta de sucessivas traições. O voto ainda destacou que o agricultor não comprovou prejuízo concreto à sua honra ou à sua vida profissional, mesmo com a repercussão pública do episódio.
O pedido para remover o vídeo das redes sociais foi considerado inócuo, uma vez que a ampla circulação já havia tornado a tentativa sem efeito prático. Sobre o recurso de Natália, o relator afirmou que a infidelidade, por si só, não gera direito a danos morais. "Nem toda dor pode ser monetizada", escreveu o desembargador, ao reconhecer que a conduta do homem é moralmente reprovável e causa sofrimento. Com isso, a corte confirmou a sentença de primeira instância, proferida em março de 2026 pela Vara Judicial da Comarca de Ibirubá.
Entenda o caso
O episódio aconteceu em Quinze de Novembro, município com cerca de 3,9 mil habitantes no interior gaúcho. Na ocasião, Natália reuniu familiares na casa dos pais de Rafael e preparou uma caixa com uma fita rosa e uma azul, em uma referência ao tradicional 'chá revelação' de gravidez. No vídeo, uma voz feminina chega a sugerir que poderia se tratar do anúncio de um bebê. Ao abrir a caixa, Natália coloca duas peças de roupa infantil sobre os ombros do companheiro e pergunta: "Qual que é realmente teu filho legítimo? E qual que é teu filho com a tua amante?"
A gravação mostra ainda Natália jogando sobre o homem uma pilha de folhas impressas com trocas de mensagens e fotos que estariam no celular dele, supostamente comprovando a infidelidade. "Eu não descobri só uma traição. Eu descobri várias", afirma a mulher no vídeo. Parentes que participavam do momento disseram que tinham conhecimento dos casos extraconjugais, incluindo a existência de um filho fora do casamento. Uma das mulheres chega a dizer: "Eu esperei ele te contar". Questionado se iria se defender, Rafael balança a cabeça negativamente.
Repercussão e defesa
O vídeo foi gravado a pedido de Natália, que solicitou a uma familiar que registrasse o momento. Não está claro quem fez a primeira publicação. Estima-se que cerca de 30 familiares acompanharam a cena. Após a viralização, a defesa do agricultor afirmou que a situação ganhou proporção exagerada. "Discordâncias conjugais acontecem em todos os lugares. A exposição exagerada nas redes sociais não resolve o problema, apenas o multiplica. Pessoas que cometem erros recebem um julgamento cruel e desproporcional da internet", disse o advogado José Luiz Dorsdt, que representava Rafael na época. Ele também defendeu que o cliente tinha "o direito de ser julgado por um juiz, não pela opinião pública".
Ausência das partes e desfecho
O g1 entrou em contato com as defesas de Rafael e Natália, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem. Com a decisão unânime da 9ª Câmara Cível, o caso segue encerrado nas instâncias ordinárias da Justiça gaúcha, restando eventuais recursos às cortes superiores.



