O ex-militar chileno Nelson Haase, condenado a 25 anos de prisão pelo assassinato do icônico cantor Víctor Jara durante a ditadura de Augusto Pinochet, foi finalmente capturado após quase três anos foragido. A prisão ocorreu na região de Los Lagos, aproximadamente 950 quilômetros ao sul de Santiago, em uma operação conjunta da Polícia de Investigações (PDI) e do Ministério Público.
Último foragido entre os condenados
Haase era o último dos sete militares condenados pelo homicídio de Jara que ainda estava em liberdade. Os outros seis já cumpriam pena desde a sentença de 2023, quando o tribunal chileno os considerou culpados pelo sequestro, tortura e morte do músico, ocorridos em setembro de 1973, nos primeiros dias do golpe militar. De acordo com fontes oficiais, Haase havia rompido a tornozeleira eletrônica e fugido para uma área remota, onde viveu sob identidade falsa.
O crime que marcou a história do Chile
Víctor Jara, diretor de teatro, poeta e cantor folk, era um dos maiores expoentes da Nova Canção Chilena e militante do Partido Comunista. Após o golpe de 11 de setembro de 1973, foi preso no Estádio Nacional, transformado em centro de detenção. Lá, foi torturado por dias — tiveram suas mãos quebradas — e executado a tiros. Seu corpo foi encontrado posteriormente em uma vala comum. A morte de Jara tornou-se símbolo da brutalidade da ditadura, que durou 17 anos.
Julgamento e condenação histórica
Em agosto de 2023, após décadas de investigações e pressão de organizações de direitos humanos, o tribunal chileno condenou sete ex-militares pela morte de Jara, incluindo Haase. A sentença de 25 anos foi a mais pesada já aplicada por crimes da ditadura contra um único indivíduo. Durante o julgamento, testemunhas descreveram a participação de Haase nas torturas, incluindo a ordem para que os dedos do cantor fossem mutilados.
Fuga e captura
Após a condenação, Haase conseguiu evadir-se do sistema prisional, possivelmente com auxílio de uma rede de ex-companheiros militares. Foragido, foi localizado graças a um trabalho de inteligência que cruzou dados de telefonia e movimentação bancária. A PDI confirmou que ele não ofereceu resistência no momento da prisão. Segundo a ministra da Justiça, "a captura de Haase demonstra que não há impunidade para crimes contra a humanidade, mesmo após décadas".
Impacto e memória
A prisão de Nelson Haase reacende o debate sobre os legados da ditadura chilena. Familiares de Víctor Jara, por meio da Fundação Víctor Jara, expressaram alívio, mas lembraram que muitos outros criminosos seguem impunes. A viúva do cantor, Joan Jara, que dedicou sua vida à busca por justiça, morreu em 2023, meses antes da condenação. O caso também reforça a importância das comissões de verdade e dos tribunais que, lentamente, têm responsabilizado os agentes do regime Pinochet.
Contexto histórico e jurídico
O Chile ainda enfrenta desafios para julgar os mais de 3.000 mortos e desaparecidos políticos da ditadura. A condenação de Haase e seus cúmplices foi possível graças à aplicação do direito internacional, já que o crime foi considerado contra a humanidade e, portanto, imprescritível. Organizações como a Anistia Internacional saudaram a prisão como um passo crucial na luta contra a impunidade.



