Dan Stulbach mal havia se sentado no aeroporto quando um casal veio dar bronca. Na sequência, a atendente. Até quem serviu o café aproveitou para reclamar do jeito como ele trata a família. A família em questão, claro, não é a dele: é a de Ademir, o advogado corrupto que ele vive em “Quem Ama Cuida” na Globo. O ator recebe tudo como elogio: “Eu acho maravilhoso que as pessoas se conectem com o que há de ético e de bom, a partir de um olhar crítico sobre um cara desses”, diz em entrevista à Coluna.
Personagem sem culpa reflete o Brasil real
“O Ademir consegue achar um argumento que justifique tudo que faz de antiético de um modo absolutamente tranquilo. Ele não tem culpa. É aí que a ficção morde o país real: boa parte do Brasil pensa assim”, analisa o ator. O sujeito em cena parece bom pai, bom marido, educado e encantador – e sem escrúpulos. “É um cara que você ia conhecer, ia gostar dele, ia ser amiga dele. E saber que, quando você tivesse um caso mais complicado na sua vida, e quisesse alguém para te livrar sem perguntar muito, você ia contratá-lo.” Alguém que “sabe os atalhos e os meandros para conseguir aquilo que ele quer dentro de uma sociedade corrupta”. Um caso extraconjugal e uma questão de assédio estão prestes a entrar na história.
Chave do papel foi sugestão do próprio ator
A chave do papel, aliás, foi sugestão do próprio Stulbach aos autores: “O Ademir não tem culpa. Ele não se sente culpado das coisas que ele faz.” Diante de qualquer deslize, o raciocínio é o mesmo: “Eu vou achar algum argumento que faça com que eu me justifique para mim mesmo de um modo absolutamente tranquilo”. É aí que a ficção morde o País real: “Isso é o que deixa as pessoas mais incomodadas. Ver um cara que não sente culpa de coisas absolutamente questionáveis e absurdas. Mas boa parte do Brasil pensa assim. E isso também ainda incomoda. Ainda bem”, analisa. “É um personagem que você encontra no Jornal Nacional. Que a gente encontra no Estadão, na página 3.”
Marcos de 'Mulheres Apaixonadas' ainda assombra
O público tem razões para temer o pior. Foi de raquete na mão que seu personagem Marcos, de “Mulheres Apaixonadas” (2003), aterrorizou o Brasil no papel do marido agressor de Raquel – atuação que levou Stulbach e Helena Ranaldi a Brasília para discutir a legislação de proteção à mulher. Pois numa gravação recente, Ademir apareceu segurando a raquete de beach tennis da mulher: “As pessoas todas ficaram malucas pensando que talvez seja por aí. Eu não sei se vai ser por aí ou não, mas um homem com esse ego, com essa vaidade, com certeza não vai aceitar a vontade da mulher”.
Entre monstros e doces, ator transita tranquilo
Entre o monstro e o doce Eugênio de “A Força do Querer” (2017), ele transita tranquilo. “Eu não tenho nenhum medo nem receio de fazer vilão e de as pessoas confundirem a minha imagem na tela com o que eu sou como pessoa”. A conta, para ele, fecha simples: “Eu tenho a certeza e a tranquilidade resolvida de que o que eu faço em cena está em cena. E o que eu sou como pessoa, eu estou como pessoa. E se eu puder, como ator, provocar as pessoas a se questionarem, é o que eu quero. Ainda mais na televisão. Porque a televisão chega em todas as camadas sociais e todos os cantos desse país”.
Rádio CBN e o medo de Paulo Autran
A relação direta com o público, sem intermediários ficcionais, ele cultiva há duas décadas no Fim de Expediente, da rádio CBN, ao lado de dois amigos – “um eu conheci na faculdade, outro no colégio”. Quando estreou, em 2006, ninguém falava em podcast; ele já fazia um. “Eu gosto muito de ter uma relação com o público que não passe pelo personagem.” Nem todos aprovaram a ideia na época: Paulo Autran implorou – “pelo amor de Deus, não faça” –, temendo que, conhecendo o homem, a plateia deixasse de acreditar nos papéis. O mestre acabou entrevistado no programa e rendeu-se: “No final ele adorava. Apesar de preferir que eu recitasse poesias do que desse opiniões políticas”.
Redes sociais e a armadilha prevista por Autran
A armadilha prevista por Autran, hoje, mora nas redes sociais. “Quanto mais opinião, quanto mais eu mostro de mim mesmo, mais as pessoas me conhecem, mais difícil é elas acreditarem no Ademir”. A régua que encontrou é doméstica. “Você vai expor seus filhos? Não vai. Você vai expor sua família? Não vai. Até onde você vai? Até onde valem os likes? Eu estabeleci um limite que para mim funciona”. Um assunto, porém, ele resolveu não conter. Primeiro da família de judeus a nascer no Brasil – cresceu em São Paulo –, Stulbach viralizou recentemente ao contar a história do pai. “Eu venho de uma família de imigrantes. Uma família que foi toda dizimada. Isso é muito marcante em mim. Está no meu nome. Está na minha cara, está no meu jeito. Está na minha maneira de ver o mundo.” Foi em casa que aprendeu a enxergar o Brasil “como um país que aceitava a todos. E que fazia da diferença a sua força”.
Antissemitismo: 'Uma infeliz surpresa'
O espanto é recente. Durante décadas, o antissemitismo estava pouco no radar do ator. “Eu não via, ou não era tão atento a isso”. Foi rodando o País como Shylock, o personagem judeu de “O Mercador de Veneza”, peça de William Shakespeare, que sentiu a mudança na própria pele. “Ouvi coisas que eu nunca imaginava ouvir.” A reação, então, ele calibra com cuidado, longe do alarme e da negação: “Não dá pra negar, não dá pra fechar os olhos para o óbvio. Eu acho que há maneiras de se criticar Israel sem ser antissemita. Há maneiras de não confundir as coisas. Há maneiras de entender e respeitar o outro”. Ele também não perde a medida histórica: “Eu não acho que é comparável o que a gente está vivendo, nem de longe, ao que o meu pai viveu”. O diagnóstico sobre o antissemitismo, porém, fica de pé durante a conversa. “É um movimento que voltou muito forte” – ou, na síntese dele, “uma infeliz surpresa”.
Bronca e emoção no aeroporto
O aeroporto das broncas também rendeu parabéns de um casal – e, dessa vez, quem se emocionou foi ele. Stulbach fica com as duas coisas. “É a minha época e o meu lugar como artista é esse também. Questionar, mostrar pro outro lado, provocar.” E Dan completa: “falar da sua dor é falar de todas as dores”.



