O Acre completa 64 anos de elevação à categoria de Estado nesta segunda-feira (15). A data, marcada por uma programação comemorativa no Calçadão da Gameleira, em Rio Branco, reacende a memória de um dos personagens mais importantes da história acreana: José Augusto de Araújo, primeiro governador constitucional e democraticamente eleito em 1962.
Natural de Feijó, no interior do estado, José Augusto assumiu o governo em 1º de março de 1963 com a missão de transformar o Acre no estado-modelo da federação após a emancipação política. O g1 conversou com a viúva de José Augusto, Maria Lúcia Melo de Araújo, de 91 anos, e com a filha dele, Nazareth Araújo, que foi vice-governadora entre 2014 e 2018. Elas contaram as memórias que têm do político e, principalmente, da pessoa do ex-governador.
Ascensão e queda
“Era um jovem de 33 anos quando tomou posse, mas um jovem que sabia o que queria para beneficiar esse estado. Queria que o Acre fosse o estado modelo da Federação do Brasil. O plano de governo dele era excelente. Ele tinha se formado há pouco tempo e queria fazer o melhor possível”, relembrou Maria Lúcia.
Entre as propostas defendidas por José Augusto, estavam iniciativas ligadas à educação superior e ao fortalecimento das instituições públicas, que mais tarde resultaram na criação de órgãos como a Universidade Federal do Acre (Ufac) e o Ministério Público do Acre (MP-AC). A ex-primeira dama destaca que a implantação dessas instituições públicas fazia parte do projeto do marido.
Mais de seis décadas depois, familiares do ex-governador mantêm viva a história do político, que teve o mandato interrompido pelo golpe militar de 1964 e morreu em 1971 após sofrer uma série de infartos. Com o início da ditadura, os opositores de Araújo viram a chance perfeita para se livrar dele. O governador escolhido pelo povo passou a ser denunciado aos militares como 'comunista'. No dia 8 de maio de 1964, José Augusto foi forçado a renunciar, data ficou conhecida como 'Cerco ao Palácio'.
O governo de José Augusto durou pouco mais de um ano. Após o golpe militar, ele foi afastado do cargo e precisou deixar o Acre com a família, indo se abrigar no Rio de Janeiro, onde viviam parentes da esposa. Em 2014, após 50 anos, a Assembleia Legislativa do Acre (Aleac) anulou a cassação de José Augusto. Conforme Maria Lúcia, foi a saída do governo que agravou a saúde do esposo. “Foi horrível para ele. Um rapaz jovem, que tinha muita vontade de fazer o bem para a população, principalmente a população pobre. Ficamos em casa, ele já estava muito doente. Foi uma fase muito difícil para a nossa família”, relata.
Relíquias da memória
Entre os objetos guardados pela família está uma caneta utilizada por José Augusto na cerimônia de posse como governador do Acre. O item foi presenteado por moradores de Cruzeiro do Sul, no interior do estado, e é tratado pela família como uma das principais relíquias da trajetória do ex-governador. “Foi muito importante não só para ele, como para a nossa família”, afirma Maria Lúcia sobre o item.
A família mantém fotografias e documentos históricos do período em que José Augusto participou da construção do estado. Entre os objetos, uma flâmula, pequena bandeira com formato triangular com a frase: 1º Aniversário do Governo Trabalhista Prof. José Augusto 1963-1964.
Legado inspirou a filha
Procuradora do Ministério Público do Acre (MP-AC), Maria de Nazareth Mello de Araújo Lambert, filha de José Augusto, conta que a trajetória dos pais influenciou diretamente sua formação profissional e política. Para ela, o legado deixado pelo ex-governador está associado à defesa da cidadania e ao acesso a direitos básicos. “É um orgulho imenso. Quando você entende os ideais que aquelas pessoas defendiam, o que queriam para a nação, você percebe a importância desse legado e isso definiu a minha vida também. Acabei sendo procuradora do Estado do Acre nessa busca pela justiça e pela realização da justiça”, destaca.
Segundo Nazareth, como forma de manter viva a história política do pai, ela decidiu doar à Ufac um acervo familiar com itens relacionados ao período dele no governo. Entre os materiais estão livros sobre administração pública, filosofia, história do Acre e da Amazônia Ocidental. “É uma riqueza de conhecimento e história viva. Enchi dez caixas de livros sobre administração, filosofia e história do Acre. Vou levar tudo para o Acre aqui do Rio de Janeiro”, afirmou. Preservar essa memória é uma forma de também manter viva a história do Acre e das pessoas que participaram da construção do estado. “É muito necessário que as pessoas conheçam esse legado. Faz parte da história do Acre e não pode ser apagado pelo tempo”, reforça.



