Jardim Ângela na Zona Leste? Os bairros xarás de São Paulo
Jardim Ângela na Zona Leste? Bairros xarás de SP

Um levantamento exclusivo do g1 com os Correios identificou 96 nomes de bairros que se repetem em diferentes regiões da cidade de São Paulo. Entre os exemplos está o Jardim Ângela, que nomeia um bairro conhecido na Zona Sul e outro na Zona Leste, no distrito de Sapopemba.

Um nome, dois bairros

A aposentada e ativista Maria José Martins, conhecida como Majo, mora há 30 anos no Jardim Ângela da Zona Leste. "Eu digo que moro no Jardim Ângela da Zona Leste, mas as pessoas associam ao Jardim Ângela da Zona Sul. Para evitar esse tipo de conflito, eu acabo falando que moro na Vila Industrial, por ser um bairro próximo", relata. Os dois territórios estão separados por mais de 30 quilômetros e têm trajetórias próprias, inserções urbanas distintas e identidades construídas por seus moradores ao longo do processo de expansão da cidade. A origem exata do nome, porém, permanece indefinida.

Segundo a historiadora Monique Borin, pesquisadora do Museu Paulista da Universidade de São Paulo, os estudos indicam que tanto o Jardim Ângela da Zona Sul quanto o da Zona Leste provavelmente seguiram um padrão comum: loteadores homenageavam familiares ao escolher a denominação. "A origem dos dois não está exatamente determinada. O que se estudou é que, muito provavelmente, eles têm um processo parecido com o da Vila Maria e o da Vila Matilde, que eram nomes de familiares do loteador desses bairros", explica.

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Ocupação e perfil dos dois Jardim Ângela

O Jardim Ângela da Zona Sul passou por intenso adensamento populacional entre as décadas de 1950 e 1980. Com o crescimento, o antigo bairro, que integrava o distrito do Capão Redondo, acabou dando nome a um novo distrito criado pela Prefeitura na gestão de Luiza Erundina. "Até então, o Jardim Ângela era um bairro como tantos outros. Com a nova divisão dos distritos, ele passa a ser também um distrito, incorporando bairros próximos", afirma Monique.

Já o Jardim Ângela da Zona Leste permaneceu como bairro no distrito de Sapopemba. Próximo às divisas com Santo André e São Caetano do Sul, mantém forte relação com o ABC Paulista. "As pessoas que moram aqui são de classe humilde, operárias. Por a gente estar muito próximo do ABC, a maioria são metalúrgicos", conta Majo. A historiadora ressalta que ambos fazem parte da expansão da periferia paulistana, frequentemente marcada por estigmas de loteamentos irregulares. "A terra urbana em São Paulo sempre foi um ambiente de disputa", afirma.

Por que existem bairros com o mesmo nome?

A repetição de nomes de bairros está ligada à forma como a cidade cresceu. Sem padronização, diferentes empreendedores adotavam denominações iguais. Segundo Monique Borin, os bairros sempre tiveram função afetiva: "Eles formam uma geografia afetiva da cidade e têm muito a ver com o pertencimento". Como não fazem parte da divisão oficial, não há regra que impeça a repetição. "Se os bairros fossem unidades administrativas oficiais, não poderiam ter nomes repetidos", completa.

Dos 96 nomes repetidos, 78 aparecem em duas localidades, 17 em três e um nome se repete em quatro pontos distintos da capital.

De onde vêm os nomes dos bairros?

Bairros mais antigos, concentrados na região central, costumam ter nomes indígenas relacionados a características naturais. A partir do início do século XX, com a expansão urbana, investidores individuais passaram a homenagear familiares. "É muito comum eles terem nomes de mulheres, em homenagem a uma filha ou a uma esposa", explica Monique.

Divisão oficial de São Paulo

Embora o bairro seja referência para os paulistanos, a Prefeitura reconhece apenas 96 distritos (Lei nº 11.220/1992) e 32 subprefeituras (Lei nº 13.399/2002). Essa divisão serve de base para a administração pública, planejamento urbano e serviços.

Diferenças entre os dois Jardim Ângela

Os indicadores sociais mostram realidades distintas. Em trabalho e renda, Sapopemba (Zona Leste) tem remuneração média formal de R$ 3.651,48, 23% superior ao distrito do Jardim Ângela (R$ 2.964,69). Em mobilidade, Sapopemba ocupa a 16ª posição em acesso a transporte de massa, contra 73ª do Jardim Ângela. Já no meio ambiente, o distrito do Jardim Ângela tem cobertura vegetal de 41,9%, quase quatro vezes mais que os 10,6% de Sapopemba.

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Na educação, os resultados são divididos: o Jardim Ângela tem maior proporção de matrículas no ensino básico público e menores índices de abandono escolar, enquanto Sapopemba tem Ideb ligeiramente superior nos anos finais. Na saúde, o Jardim Ângela tem menor tempo médio para consultas (6 dias contra 26) e menores índices de mortalidade infantil, mas Sapopemba tem maior idade média ao morrer (68 anos ante 63) e menor gravidez na adolescência.

Desafios em comum

Ambos os distritos estão entre os com menor oferta de equipamentos culturais e piores indicadores de feminicídio. O acesso à internet móvel também é limitado. "Mais do que uma curiosidade cartográfica, a repetição de nomes ajuda a contar a história da formação de São Paulo", conclui o artigo.