Formatos de fogueira junina: quadrada, redonda ou triangular?
Formatos de fogueira junina: quadrada, redonda ou triangular?

As fogueiras das festas juninas vão muito além de aquecer as noites frias de junho e compor o cenário típico. Elas carregam significados históricos e religiosos profundos. De acordo com a tradição popular, cada santo do mês é homenageado com um formato diferente de fogueira. Para explicar a origem dessa relação, o g1 conversou com Diogo Comitre, professor de História do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), campus Sorocaba (SP).

Formatos e significados

Em algumas comunidades, os tipos de fogueiras são divididos especificamente entre os três principais santos católicos do mês: Santo Antônio, São João e São Pedro. Cada um deles recebe uma fogueira de formato distinto: quadrada, redonda e triangular. Cada desenho tem uma explicação simbólica ligada às crenças de cada santo, segundo o historiador.

A fogueira de Santo Antônio tem o formato quadrado. Diogo explica que o desenho representa a estabilidade e a união familiar, uma referência direta à fama do santo como "casamenteiro".

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Já a fogueira de São João é montada com uma base redonda. O formato circular simboliza a comunidade reunida em torno da fé e também faz alusão ao céu e aos ciclos da natureza. "O círculo também pode simbolizar o céu, indicando movimentos cíclicos", explica.

A fogueira de São Pedro tem o formato triangular. O historiador explica que o triângulo é uma homenagem à Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo), um dos pilares da doutrina cristã.

Mistura de crenças

No Brasil, a tradição das fogueiras juninas se uniu a crenças indígenas e de matrizes africanas. Diogo cita o sincretismo religioso entre São João e Xangô, orixá da justiça ligado ao elemento fogo. "Esse sincretismo fez com que escravizados e seus descendentes celebrassem Xangô no período junino através da tradição da fogueira", explica. Nas tradições xamânicas, o fogo funciona como um guia espiritual para conectar o mundo material ao divino.

Apesar dessas diferentes visões, o historiador reforça que os formatos das fogueiras continuam sendo uma tradição livre. Ele lembra que a Igreja Católica aceitou as fogueiras no Concílio de Trento (século 16), mas nunca ditou regras sobre o formato delas.

Tradição viva em família

Em Itapetininga (SP), a família de Maria Luiza Azevedo, de 23 anos, mantém esses costumes vivos. Católica, a família decidiu pesquisar o significado das fogueiras no ano passado, quando organizou a primeira festa junina no sítio da família. "A gente sabia que existiam vários tipos de fogueira, mas não sabia quais eram", conta. A intenção de Maria Luiza e de sua mãe era resgatar a cultura religiosa na confraternização. Elas escolheram montar a fogueira de Santo Antônio, que tem a base quadrada. "A gente pesquisou para conseguir trazer um pouco de cultura, e não só fazer a festa", explica.

Para Maria Luiza, o fogo cumpre um papel social indispensável nas festas de junho, funcionando como o ponto principal do evento. "As pessoas costumam planejar para que tudo aconteça em volta dela, tanto para que fiquem aquecidas por conta do frio quanto como um ponto de encontro, de conversa, uma coisa mais social mesmo", diz.

Origem das fogueiras

O costume de acender fogueiras em junho é mais antigo que o cristianismo. A tradição começou com os camponeses da Europa antiga, que faziam rituais pagãos para homenagear os deuses da natureza e da fertilidade. Os rituais aconteciam durante o início do verão no Hemisfério Norte, segundo Diogo. Os moradores se reuniam em volta do fogo para agradecer pelas colheitas, espantar pragas das plantações e pedir proteção contra maus espíritos.

Séculos depois, a Igreja Católica enfrentou resistência para converter a população do campo na Europa. Para facilitar a aceitação do catolicismo, as autoridades religiosas decidiram misturar as tradições pagãs com os elementos cristãos. "Visando superar essas dificuldades, autoridades cristãs procuraram misturar tradições pagãs e cristãs na Península Ibérica como estratégia de aproximação com a população do meio rural, tornando a doutrina cristã mais palatável para essa população", diz.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Como a Igreja não conseguia proibir as festas que o povo tanto gostava, ela trocou a homenagem aos deuses da natureza pela celebração de santos populares. Foi assim que a fogueira passou a ser ligada a Santo Antônio, São João e São Pedro. O costume chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses no século 16.

No caso de São João, a tradição católica criou uma história popular: a mãe de João Batista teria acendido uma fogueira no topo de uma montanha para avisar Maria sobre o nascimento do bebê. "Embora o episódio não conste na Bíblia, segundo a crença católica, a mãe de João Batista teria acendido uma fogueira como forma de avisar Maria sobre o nascimento dele, o que explica a prática de se acender uma fogueira no dia 23 de junho", explica o historiador.

Assim como a história de São João, o costume de ligar os formatos de fogueiras a diferentes santos também é um costume popular, e não uma regra religiosa. "Não existe certo e errado, porque, como é uma prática popular, ela pode ter relevância ou não. É importante entender que não existe uma associação entre formato da fogueira e santo de acordo com as recomendações litúrgicas da própria Igreja Católica", afirma.

Para Maria Luiza, essa mistura de histórias ajuda a manter o costume vivo. Segundo ela, a fogueira une o passado religioso e a cultura antiga com a função atual de aproximar amigos e parentes. "A fogueira reúne essa cultura cristã, católica, e também uma tradição anterior, ligada à cultura pagã. Hoje, ela também tem esse lado mais social, de ser um centro para reunir as pessoas", finaliza.