O abandono da antiga rodoviária de Campo Grande, desativada há cerca de 15 anos, deixou impactos que ultrapassam o entorno do antigo terminal. Comerciantes, representantes do setor imobiliário e especialistas afirmam que a degradação da área contribuiu para o enfraquecimento de todo o centro da capital, com aumento da insegurança, fechamento de estabelecimentos e centenas de imóveis sem ocupação.
Cenário de abandono nas ruas comerciais
O cenário pode ser visto nas principais ruas comerciais da cidade. Na Rua 14 de Julho, na Calógeras e em outras vias do Centro, salas comerciais fechadas, imóveis pichados e placas de aluguel se tornaram comuns. Para quem trabalha na região há décadas, a redução no fluxo de consumidores transformou a rotina dos comerciantes.
Sensação de insegurança afasta clientes
Marcos Estevão, gerente de uma loja instalada na Rua 14 de Julho há 27 anos, afirma que muitos clientes deixaram de frequentar o centro por causa da sensação de insegurança. "Todos os dias algum lojista relata furto, roubo de fios ou outros prejuízos. Às vezes nem conseguimos abrir a loja porque ficamos sem energia", relata.
Reflexos em todo o centro
Segundo a Associação Comercial e Industrial de Campo Grande (ACICG), a deterioração da região da antiga rodoviária provocou reflexos em todo o centro da cidade. Entre os principais fatores apontados pelo setor estão a insegurança, o aumento da população em situação de rua, a falta de políticas sociais mais efetivas e poucas ações de incentivo ao comércio.
Para o diretor da ACICG, Paulo de Mattos, a recuperação da antiga rodoviária é fundamental para interromper o processo de esvaziamento da região. "Se não revitalizar aquilo ali, cada vez mais o centro vai morrendo. O comércio fecha e as pessoas deixam de investir."
Mercado imobiliário em crise
A crise também atingiu o mercado imobiliário. De acordo com estimativas do setor, mais de 300 imóveis estão abandonados na região central. Muitos permanecem anos disponíveis para venda ou locação sem despertar interesse de investidores.
A vice-presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de Mato Grosso do Sul (Creci-MS), Simone Leal, afirma que a transferência da rodoviária, em 2010, marcou o início desse processo. "A falta de segurança fez os prédios ficarem vazios. Hoje há muitos casos de furtos, roubos de fios e as pessoas não se sentem seguras para caminhar pela região, principalmente as mulheres."
Revitalização como ponto de partida
Apesar das dificuldades, comerciantes e especialistas acreditam que a revitalização da antiga rodoviária pode marcar o início da recuperação do centro de Campo Grande. O prédio passa por reformas e a prefeitura pretende instalar no local a base da Guarda Civil Metropolitana e a Fundação Social do Trabalho (Funsat). A expectativa é que a presença de serviços públicos aumente a circulação de pessoas e estimule novos investimentos.
Para o conselheiro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Mato Grosso do Sul (CAU-MS), Gustavo Shioto, a mudança precisa transformar também a percepção da população sobre a região. "O campo-grandense criou uma memória muito negativa desse espaço. A revitalização precisa valorizar o prédio e gerar um efeito positivo em toda a vizinhança, alcançando bairros próximos e também o centro comercial."
Potencial de moradia no centro
Na avaliação da Associação Comercial, o fortalecimento do centro também passa pelo incentivo à moradia. Segundo Paulo de Mattos, a região ainda tem potencial para crescer. "Hoje cerca de 70 mil pessoas moram no centro da cidade. A capacidade é de mais de 100 mil moradores. Mas isso depende dessas melhorias para tornar a região novamente atrativa."



