Whitehead e os dois mandamentos da educação contra ideias inertes
Whitehead e os mandamentos contra ideias inertes na educação

Nascido na Inglaterra e educado nas melhores escolas, Alfred North Whitehead foi uma das cabeças mais prodigiosas do século 20. Deixou um rastro indelével em tudo por onde passou, dedicando-se a temas complexos sobretudo na filosofia, na matemática e na física. Sua obra monumental Principia Mathematica, escrita com Bertrand Russell, é tão incompreensível quanto imperecível; conta-se que apenas nove pessoas no mundo conseguiam entendê-la.

Mas há um curioso contraste: reunido com os amigos nos fins de semana, Whitehead conversava sobre tudo, e suas noitadas eram tão fascinantes que Lucien Price, também professor de Harvard, fazia anotações e as publicou em um livro de leitura agradável. Sobre educação, o pensador escreveu pouco — porém com rara clareza. No livro The Aims of Education, ele condensa ideias que, ilustradas com exemplos práticos, continuam atuais.

O perigo das ideias inertes

Para Whitehead, o primeiro passo é evitar as “ideias inertes”, ou seja, ideias “recebidas, mas não utilizadas, testadas ou combinadas com outras”. Se o aluno não é levado a usar equações quadráticas, por que estudá-las? Se não planeja uma grande aventura na selva, para que decorar os afluentes do Amazonas? “Ideias inertes não são apenas inúteis, são perversas”, alertou o filósofo.

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Contra essa educação tóxica, Whitehead propõe dois mandamentos poderosos. O primeiro: que não se ensinem assuntos demais. O segundo: que tudo o que for ensinado o seja em profundidade. São dois princípios simples, mas capazes de revolucionar a escola.

Dois mandamentos contra o enciclopedismo

Na tradição brasileira, abarrotar os livros didáticos é doença antiga e endêmica. Saneá-los a partir desses dois princípios seria uma revolução silenciosa. Quando se ensina demais, não há tempo para aprofundar nada. Ouve-se falar de tudo, mas nada é dominado na intimidade exigida para ter uso na vida real. Uma ideia que não foi digerida o bastante para ser usada é, na prática, inútil.

Admita-se que quebrar a cabeça com uma ideia difícil desenvolve o raciocínio. Mas se o assunto está longe do universo do aluno, ele não percebe o nexo com a realidade, e a motivação para ir a fundo se esvai. O melhor caminho é explorar em profundidade algumas poucas ideias importantes, investigando suas conexões com o mundo real ou com outras ideias. Não se trata, porém, de beliscar um pedacinho daqui e outro dali, como em um restaurante por quilo. Em certos campos, o conhecimento é fortemente concatenado e exige um passo a passo estruturado.

Conhecimento útil e aplicado ao mundo real

Paradoxalmente, um pensador cuja obra principal é altamente abstrata aconselha as escolas a começar por uma educação concreta e útil. Afinal, se não for útil, por que ensinar? Utilidade, no entanto, não se restringe ao mundo físico, como aprender a construir uma colher de pau. A filosofia é útil quando nos ajuda a entender o sentido da nossa vida. A escola deve privilegiar as ideias e a sua aplicação no mundo real, em vez da erudição desconectada de temas relevantes.

Estudamos o passado para compreender o presente, não para decorar datas ou os reis da França. A Revolução Industrial precisa ser estudada para que entendamos as profundas transformações que causou em nossa própria vida. Ler O Alienista, de Machado de Assis, não é para fazer uma ficha-resumo, mas para entender o significado da loucura no mundo moderno. Se a Lei de Ohm não nos permite entender como funciona um chuveiro elétrico, é porque ficamos apenas na fórmula.

Decorar os componentes do sistema reprodutivo das plantas, por exemplo, é inútil. Mas é útil entender por que, sem árvores, a água escasseia ou como elas retiram o CO2 do ar. Decorar regras de gramática não é um fim em si; a escola deve levar o aluno a escrever de forma relevante, rigorosa e elegante. De que adianta estudar juros compostos se a pessoa não sabe calcular se a prestação do televisor é excessiva?

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Ciência, liberdade e disciplina

Nas ciências, a magna prioridade é entender a lógica para verificar se uma proposição importante é verdadeira. É dominar o método científico: a teoria descreve o mundo real? Fazer ciência é perguntar sobre a realidade observável. Infelizmente, em nossos livros, os problemas não são de física, mas de fazer contas mecanicamente, aplicando fórmulas em problemas bobocas.

Whitehead também aponta o desafio de conciliar liberdade e disciplina. Embora sejam polos opostos, ambas são necessárias. Sem liberdade, a mente não é espicaçada por ideias novas nem estimulada à criatividade. Sem o hábito de estudar com afinco, não se chega a lugar algum. Fazer conviver esses dois opostos é um dos maiores desafios da educação.

Em última análise, o objetivo da educação é fazer com que o aluno perceba, com pungência, a beleza das ideias e o seu poder. A educação deve ser vivida como uma emocionante aventura do intelecto. As propostas de Whitehead, formuladas há décadas, seguem como um farol para repensar o ensino.