O período junino nas escolas brasileiras, tradicionalmente marcado por quadrilhas e forró pé-de-serra, tem passado por uma transformação radical. Vídeos que viralizam nas redes sociais mostram alunos de norte a sul do país adaptando as coreografias clássicas para incluir passinhos como o do Jamal, do brega funk, e movimentos da trend '6'7' (six-seven), embalados por versões remixadas de forrós tradicionais.
Mistura de ritmos divide opiniões
Em Itumbiara, Goiás, a apresentação do 5º ano da estudante Sophia Pacheco Duarte Silva, de 10 anos, combinou o phonk 'Brasil com S' (2026) com uma versão de forró de 'Sou Brasileiro' (Banda Bicho do Mato, 2014) e o hit '6'7'. A mãe, Joice Cristina Pacheco Silva, de 28 anos, publicou um vídeo com a legenda 'Os pais indo na quadrilha dos filhos em 2026🤡' e aprovou a abordagem: 'É a dança do momento deles. A gente tem que se adaptar porque, querendo ou não, com o passar dos anos as coisas vão mudando. É só não deixar a tradição completamente de lado'.
Pedagogos enfrentam desafio com dancinhas
Em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, uma instituição de ensino cristã optou por manter a estrutura tradicional da festa, mesmo após os alunos pedirem para incluir o passo do Jamal. A coordenadora Rafaela Charamba explicou: 'A inovação é importante, sim, claro. Mas ela pode ser incluída dentro da escola de outras formas, e não de uma maneira que quebre tradições que são passadas de geração em geração'. O repertório incluiu clássicos como 'Riacho do Navio' (Luiz Gonzaga e Zé Dantas), 'No Lume da Fogueira' (Dominguinhos), 'Foi Deus Quem Fez Você' e 'Balão Dourado' (ambas na voz de Amelinha).
Em outro colégio particular de Pernambuco, a coreografia foi desenhada como um mergulho no sertão, homenageando a obra de Luiz Gonzaga e debatendo a importância da água. A diretora Paula Leão afirmou: 'Nunca é só a festividade, mas a relação que ela tem com o conteúdo pedagógico. Abordando esse tema, a gente traz as histórias por trás das músicas: as alegrias e as dores do povo sertanejo. Escutamos as demandas dos alunos, sim, mas sem fugir da nossa história'.
Artistas veem fusão com otimismo
O cantor e compositor Almério, natural de Altinho (PE), que transita entre forró, xote e MPB, avalia que o movimento não ameaça os ritmos tradicionais. 'É importante deixar os mais novos passearem pela tradição porque tudo muda o tempo todo. O que tiver substância e verdade, vai ficar', disse. Almério também aponta que, impulsionados por vertentes como o piseiro, os gêneros tradicionais vivem um momento de expansão: 'O forró como um todo, com ou sem essas novas ferramentas, tem ganhado mais força e espaço tanto no Brasil quanto internacionalmente. O envolvimento dos jovens nessas trends é a prova disso'.



