Refugiada síria inspira políticas de acolhimento na UFPR
Refugiada síria inspira acolhimento na UFPR

Em 2013, a vida de Lucia Loxca mudou drasticamente. Estudante de Arquitetura na Universidade de Alepo, na Síria, ela viu seus sonhos interrompidos pela guerra civil. Um bombardeio à universidade matou 46 estudantes e a forçou a fugir. Com a família, Lucia deixou o país e foi acolhida como refugiada no Brasil, estabelecendo-se em Curitiba.

A escolha por Curitiba não foi aleatória. Lucia, apaixonada por arquitetura, sabia que a capital paranaense é reconhecida como modelo na área. No entanto, a adaptação foi difícil. Sem falar português, ela tentou ingressar em faculdades particulares, mas foi recusada. Foi então que, incentivada pelo marido, também arquiteto, decidiu tentar a Universidade Federal do Paraná (UFPR).

O encontro que mudou tudo

No fim de dezembro de 2013, nos corredores vazios do Centro Politécnico da UFPR, Lucia encontrou o professor Paulo Chiesa, então coordenador do curso de Arquitetura. Com dificuldades no idioma, ela explicou sua situação de refugiada e mostrou os documentos que conseguiu salvar sob as bombas na Síria. Chiesa, que já havia participado de uma formação do ACNUR, ficou sensibilizado e levou o caso à reitoria.

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Inspirada por um modelo da UFRJ, a UFPR criou rapidamente um plano de acolhimento para refugiados. Lucia tornou-se a primeira refugiada matriculada na universidade, e seu caso serviu de base para a aprovação de uma resolução específica sobre o tema.

Da matrícula à permanência

Superada a matrícula, Lucia precisou garantir sua permanência. As aulas de português para estrangeiros no Centro de Línguas e Interculturalidade (Celin) foram essenciais. Professores permitiram que ela fizesse provas em inglês no primeiro semestre, e colegas a ajudaram com traduções. Em agosto de 2017, após três anos, ela se formou. "Aquele momento foi um milagre na minha vida", lembra.

A formatura de Lucia não encerrou o processo. Pelo contrário, inspirou a criação de políticas mais amplas. Desde 2018, a UFPR realiza um vestibular específico para migrantes e refugiados, além de reaproveitar vagas remanescentes. Mais de 270 estudantes já ingressaram por essas vias.

Políticas de acolhimento em expansão

Em agosto de 2025, foi criada a Coordenadoria de Acolhimento e Trajetórias Acadêmicas de Estudantes Internacionais e Migrantes (Catrim), que acompanha semestralmente os estudantes estrangeiros. A universidade também oferece acolhimento psicológico, tutoria, orientação jurídica e revalidação gratuita de diplomas. Em 2025, 231 diplomas foram revalidados.

Para Nathielly Daiany Oliveira Santos, coordenadora da Catrim, o acompanhamento é crucial. "Não adianta só conseguir ingressar. É importante que ele continue", afirma. Ela reconhece que ainda há espaço para melhorias, especialmente para simplificar processos e garantir a permanência dos alunos.

Troca mútua de conhecimentos

A chegada de migrantes e refugiados enriquece a universidade. Estudantes e professores aprendem com novas culturas e perspectivas. Lucia, por exemplo, voltou à UFPR quase 10 anos após se formar para palestrar sobre arquitetura árabe. "É uma troca cultural muito rica", diz.

O professor Paulo Chiesa resume: "Tem espaço para todo mundo. A gente enriquece muito a nossa cultura, a nossa postura filosófica de vida." A UFPR, hoje referência em acolhimento, mostra que a educação pode transformar vidas e construir pontes entre diferentes realidades.

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