Malala: tecnologia democratiza educação e combate restrições
Malala: tecnologia democratiza educação e combate restrições

A ativista paquistanesa Malala Yousafzai, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2014, afirmou que a tecnologia pode ser uma importante aliada na democratização da educação, permitindo que o ensino alcance regiões remotas e meninas que vivem em locais onde a educação feminina ainda é proibida. Ela manifestou temor com o avanço do Talibã sobre os direitos das mulheres no Afeganistão. A declaração foi dada nesta terça-feira (4) durante a 6ª edição da Rio Innovation Week, realizada no Píer Mauá, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, em entrevista à jornalista Lilian Ribeiro, da TV Globo.

Educação defasada e o papel da tecnologia

“Nosso sistema educacional não responde com a rapidez necessária às mudanças climáticas, tecnológicas e sociais que observamos atualmente. Essa é uma questão presente em diversos países, seja no Paquistão, no Brasil ou no Reino Unido. A tecnologia nos oferece ferramentas para alcançar comunidades muito distantes, permitindo que a educação chegue mais longe e se torne mais acessível”, afirmou Malala.

A ativista destacou que cerca de 120 milhões de meninas e adolescentes em todo o mundo ainda não têm acesso à educação. Segundo ela, a tecnologia pode ser um caminho para ajudá-las a enfrentar as restrições que impedem seu desenvolvimento. Malala também manifestou preocupação com a proibição da educação feminina no Afeganistão, onde o Talibã impõe duras restrições às mulheres.

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Fundo Malala e resistência afegã

Criadora do Fundo Malala, organização sem fins lucrativos dedicada à promoção de educação de qualidade para meninas, a ativista informou que a instituição apoia cerca de 140 grupos ao redor do mundo. Segundo ela, o trabalho da organização contribui para levar ensino a regiões onde estudar pode representar um ato de resistência. “Meninas do Afeganistão me dizem que ler um livro é um ato de resistência”, relatou.

História de superação

A própria Malala foi vítima do Talibã. Aos 15 anos, sofreu um atentado por defender o direito das meninas à educação na região do Vale do Swat, no Paquistão. O ataque ocorreu em 9 de outubro de 2012, quando ela retornava para casa em um ônibus escolar e dois homens armados entraram no veículo, perguntaram por ela e dispararam. Além da ativista, outras duas estudantes ficaram feridas, mas todas sobreviveram.

O trabalho de Malala em defesa da educação lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz em 2014. Aos 17 anos, tornou-se a pessoa mais jovem da história a receber a honraria. Atualmente, tem 29 anos. Após o atentado, mudou-se para o Reino Unido para escapar da perseguição do Talibã. Em junho de 2020, formou-se em Filosofia, Política e Economia pela Universidade de Oxford.

Barreiras e transformação

Durante a entrevista, Malala ressaltou o papel fundamental do pai, professor e diretor de escola, em sua trajetória. “Quando encontro meninas ao redor do mundo, vejo a mim mesma nelas. Eu adorava estar em sala de aula. Meu pai era professor e diretor da escola. Quando o Talibã proibiu a educação, um mundo inteiro se fechou para mim. A educação me deu liberdade. Eles sabem que ela é a base da consciência e da emancipação das mulheres”, afirmou.

A ativista destacou que busca usar a visibilidade conquistada para ajudar jovens que enfrentam desafios semelhantes aos que viveu. “Gostaria de dizer que a minha história e a do meu pai não são únicas. Existem meninas promovendo mudanças em suas comunidades que não recebem o apoio necessário. Quero que todos saibam que elas têm potencial, assim como eu tive um dia”, declarou.

Reflexões sobre reconhecimento

Malala também falou sobre o impacto do reconhecimento internacional em sua vida e sobre as dúvidas que enfrentou ao longo da caminhada. “Parte do meu processo de aprendizado e crescimento foi manter a mente aberta. Quando temos 16 ou 17 anos, acreditamos que temos todas as respostas. Eu pensava que poderia mudar o mundo sozinha. As pessoas me concediam prêmios, inclusive o Nobel, e eu me perguntava: será minha culpa que tantas meninas ainda estejam fora da escola? Depois percebi que uma pessoa pode iniciar um movimento de mudança, mas é o coletivo que transforma o mundo”, refletiu.

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Apelo final

Ao encerrar sua participação, Malala fez um apelo para que a busca por um mundo melhor caminhe lado a lado com o cuidado da saúde mental e a capacidade de sonhar. “Sonhe grande. Nunca sonhe de forma modesta; sonhe tão alto que seus objetivos pareçam impossíveis. E tente. Pense no que você pode fazer hoje e amanhã. Pode ser um pequeno passo, mas ele representa o início de uma transformação. Juntos, somos mais eficazes do que quando agimos isoladamente”, concluiu.