IA impulsiona busca por cursos técnicos entre jovens brasileiros
IA impulsiona busca por cursos técnicos entre jovens brasileiros

Uma reportagem recente do The New York Times mostrou como adolescentes que vivem em pleno Vale do Silício estão deixando de estudar em universidades para fazer cursos profissionalizantes na área de construção civil. Esses jovens observam que a inteligência artificial está eliminando postos de trabalho para quem acaba de se formar e, por isso, estão buscando formações mais simples e rápidas que lhes garantam um emprego com salário de pelo menos US$ 200 mil anuais.

O senso comum apontaria para o oposto disso na Meca da inovação tecnológica, onde são desenvolvidas algumas das melhores plataformas de IA do mundo. Mas as demissões aos milhares, especialmente na área de TI (o que aumenta essa ironia), estão pesando na hora de escolher uma profissão. Além disso, a dívida estudantil universitária sempre assombrou os jovens de um país sem universidades públicas gratuitas e com um financiamento estudantil muito mais caro que o brasileiro FIES.

Pelo menos por enquanto, ainda não se observa esse movimento entre os brasileiros. Por aqui, fazer faculdade continua sendo um importante fator de mobilidade social. Mas a IA já está mudando o ensino nas escolas técnicas e universidades do país.

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Assim como acontece com as redes sociais, nossos jovens já usam intensamente a inteligência artificial, mas fazem isso, via de regra, com uma educação digital deficiente. Os resultados são um aproveitamento limitado de seus recursos e um alto risco de comprometimento de seu aprendizado.

Essas deficiências abrem oportunidades interessantes para o reposicionamento e modernização do ensino brasileiro. Não se trata de submissão a uma tecnologia, mas de aproveitar a disrupção social e cognitiva que ela está promovendo no cotidiano.

A sensação de que a IA pode diminuir o trabalho também preocupa aqui. Especialistas afirmam que o avanço tecnológico, a incerteza econômica e dificuldades de inserção profissional são decisivos. "No Brasil, há preocupação com o impacto da IA no emprego, com o ensino técnico e os cursos superiores de tecnologia aparecendo como alternativas de menor risco financeiro", afirma o professor Rodrigo Vieira dos Santos. "A insegurança, portanto, não é contra o conhecimento em si, mas contra a combinação de custo alto, demora excessiva e retorno incerto da universidade."

Embora os cursos técnicos representem pouco mais de um quinto das matrículas do Ensino Médio, sua participação dobrou nos últimos seis anos, impulsionada pela busca de uma formação rápida, prática e conectada ao mercado. Ao mesmo tempo, educadores ressaltam que esse movimento não deve ser interpretado como uma rejeição ao ensino superior, mas como uma tentativa de construir a carreira em etapas, reduzindo riscos em um momento de profundas transformações provocadas pela IA.

Embora não haja evidências de que a IA esteja levando os brasileiros a trocar a universidade por "profissões manuais", ela passou a fazer parte do cálculo de empregabilidade dos jovens. Cursos técnicos e tecnólogos ganham espaço por oferecerem uma formação ligada a atividades com atuação em contextos reais, menos suscetíveis à automação. Em áreas como indústria, manutenção especializada e tecnologia, podem oferecer remunerações comparáveis às de graduações tradicionais.

"As habilidades técnicas tendem a ser cada vez mais supridas pelas automatizações de IA, contudo as habilidades comportamentais estão blindadas", diz Marcelo Krokoscz, diretor do Colégio Técnico FECAP. Competências como comunicação, trabalho em equipe, ética, capacidade de decisão, adaptação e resolução de problemas em situações reais continuarão sendo essencialmente humanas. A IA tende a valorizar quem combina domínio técnico com experiência prática e habilidades interpessoais, justamente os atributos mais difíceis de automatizar.

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Com isso, o ensino precisa mudar. "O professor precisa formar pessoas com pensamento crítico", explica Ana Lucia de Souza Lopes, professora e líder do Laboratório de Humanidades Digitais, na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Segundo ela, "quem não for educado assim não entenderá o papel da sua profissão dentro dessas novas demandas da sociedade." Mais do que transmitir conteúdo, a escola passa a ter a missão de ensinar os alunos a pensar sobre o próprio processo de pensamento e a usar a tecnologia de forma consciente e crítica.

Mudanças provocadas pela IA

O preconceito contra o ensino técnico, historicamente visto como alternativa para quem não chega à universidade, começa a perder força. "O sistema brasileiro ainda carrega separações simbólicas e institucionais entre 'mão' e 'cabeça', entre formação técnica e formação acadêmica", descreve Santos. "O ideal é construir itinerários integrados, o que é importante em uma economia em que a produtividade depende de domínio técnico, capacidade analítica e adaptação contínua."

Essa mudança vem de um mercado que valoriza cada vez mais competências práticas e atualização permanente. Com a demanda crescente por profissionais qualificados, a discussão passa a considerar qual formação oferece melhores condições para aprender continuamente, adaptar-se às novas tecnologias e construir uma trajetória profissional consistente, características desses estudantes.

O Brasil não pode, porém, insistir na ideia de que o ensino superior seja um privilégio das elites. Se a universidade passar a ser vista como um investimento caro, demorado e de retorno incerto, a IA pode aprofundar desigualdades históricas ao restringir a mobilidade social. Ao mesmo tempo, os cursos técnicos democratizam o acesso à qualificação, mas não devem ser tratados como caminhos de menor prestígio.

Para os especialistas, não existe uma resposta única diante das transformações da IA. "Se o objetivo é disputar uma vaga de altíssima concorrência, faz sentido um Ensino Médio com perfil de pré-vestibular", sugere Krokoscz. "Mas, se for continuar o desenvolvimento e amadurecimento pessoal, o ensino técnico é uma excelente opção." A decisão deve levar em conta vocação, tempo de inserção no mercado, custo, perspectivas de renda e a possibilidade de construir a carreira em etapas.

"É importantíssimo recuperar o valor do conhecimento, porque não dá para fugir dos efeitos da IA", conclui Lopes. "Temos que trabalhar isso na perspectiva da inteligência humana, que é o que está em jogo." Para ela, as escolas precisam formar jovens críticos e com competências socioemocionais, em vez de apenas consumir respostas prontas produzidas por máquinas.

O desafio, portanto, não é competir com a IA, mas evitar que ela substitua aquilo que é só nosso. A tecnologia deve ampliar as capacidades das pessoas, e não servir de atalho para que elas abandonem a reflexão, a criatividade e a responsabilidade de construir conhecimento e, assim, transformar a sociedade.