A promessa de tornar invisível o uso de inteligência artificial (IA) em redações tem se espalhado em tutoriais nas redes sociais. No entanto, um teste realizado pelo g1 com ferramentas disponíveis no mercado indica que essa estratégia é limitada: em vez de zerar os indícios de produção automática, ela apenas reduz a taxa de detecção, sem eliminar por completo as marcas da máquina.
Teste do g1 coloca humanizadores à prova
Para verificar o efeito dos chamados humanizadores, o g1 solicitou ao ChatGPT que produzisse uma redação no formato do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), com o tema de 2025: "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira". O material foi submetido a um detector de IA, que apontou 100% de probabilidade de automação. Em seguida, o texto passou por dois serviços de "humanização" e foi reencaminhado ao mesmo detector.
O resultado demonstrou que a intervenção das ferramentas reduziu para cerca de 80% a taxa de características de IA, mas não as apagou totalmente. O texto continuou distante de uma produção humana típica, contrariando o discurso dos vídeos que prometem uma passagem despercebida pelos softwares de verificação.
Risco vai além da detecção
Educadores ouvidos pelo g1 afirmam que o problema central não é apenas a possibilidade de detecção, mas o impacto no processo de aprendizagem. Ademar Celedônio, diretor de ensino e inovações da Arco Educação, avalia que quando a IA formula teses, escolhe argumentos e constrói conclusões, o estudante pode até entregar uma redação, mas não desenvolve a competência de produzi-la. "Quando a inteligência artificial formula teses, escolhe os argumentos e constrói a conclusão, o estudante pode entregar uma redação, mas não necessariamente desenvolve a capacidade de escrevê-la", afirma.
Celedônio também analisou os textos do teste e destacou que a redução percentual indicada pelo detector não corresponde ao desaparecimento das marcas originais. Segundo ele, a sequência de ideias, os exemplos e a proposta de intervenção permaneceram praticamente intactos.
Sinais de automação que permanecem
Maysa Barreto, assistente pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, explica que, mesmo quando traços típicos da IA são suavizados, como repetições de palavras ou formalidade excessiva, outros indícios continuam presentes. Professores apontam como principais sinais:
- Uso frequente de períodos curtos, dificultando o desenvolvimento das informações.
- Generalizações e afirmações baseadas no senso comum.
- Expressões da oralidade usadas como se "humanizar" significasse tornar o texto informal.
- Falta de exemplos ou justificativas ligadas ao cotidiano.
- Padronização no tamanho dos parágrafos.
Essas características tornam o ritmo e as construções das frases repetitivos e artificiais, mesmo que o detector não aponte altos índices. A superficialidade argumentativa também persiste. "A escrita é construção, um processo cognitivo que traz características individuais de cada processamento, de cada vivência, de cada conhecimento adquirido previamente ou até mesmo do atendimento a uma expectativa de leitura futura, o que influencia na autoria, na formulação das frases, no encadeamento das ideias, na seleção de palavras", argumenta Maysa.
O caso dos 32 reprovados
A preocupação com o uso de IA em avaliações ganhou força depois que o professor universitário Jason Gibson, em uma universidade americana, criou uma armadilha para flagrar alunos que haviam usado a tecnologia para realizar uma prova inteira. O resultado foi a reprovação de 32 dos 35 estudantes. O episódio ilustra como os detectores e métodos alternativos de verificação estão se tornando mais comuns no ambiente acadêmico.
Para Fernanda Becker, analista pedagógica da plataforma Redação Nota 1000, a prática de delegar a escrita à IA atropela as etapas de construção do conhecimento e inibe a criatividade e o pensamento crítico. "A elaboração de uma redação não se resume ao resultado final, mas a um percurso de aprendizagem que envolve a aquisição de repertórios, a formulação de argumentos próprios e o encontro com o próprio estilo de escrita, aspectos que exigem tempo para que se desenvolvam", comenta.
Consequências no momento da prova
Os educadores também lembram que os estudantes não poderão contar com a tecnologia em situações de avaliação presencial. Se o desenvolvimento da escrita for prejudicado pelo uso constante de IA, redigir sob pressão se tornará ainda mais complicado. Sérgio Paganim, professor e coordenador de redação do Curso Anglo, acrescenta que a construção de um texto é um exercício complexo, que exige repertório, elaboração de argumentos e compreensão de estrutura e linguagem. "Tudo isso precisa ser treinado pelo próprio aluno e não feito por uma máquina", opina.
Outro alerta dos professores é que a IA tende a não utilizar repertórios específicos e, quando os usa, pode inventar fatos, dados ou leis que não existem, reduzindo a credibilidade do texto. "A prática autoral e constante de redação é o único meio de obter plena autonomia na construção de um texto", recomenda Fernanda.
Quando a IA pode ser uma aliada
Apesar das críticas, os especialistas reconhecem que a inteligência artificial pode contribuir para os estudos se for usada como suporte, e não como substituta do processo autoral. A tecnologia pode ser empregada para analisar redações nota mil, indicando quais pontos positivos levaram à pontuação máxima. Também é possível usar essas produções de alto nível como referência para que a IA ajude na análise de um texto autoral, apontando aspectos a melhorar.
Fernanda acrescenta que, em vestibulares, a IA pode sintetizar os critérios de avaliação de cada prova de redação, facilitando a compreensão das competências exigidas pelas bancas. Além disso, os alunos podem pedir sugestões de repertórios socioculturais, como filmes, livros e músicas, de acordo com o tema estudado. "A IA pode ser uma boa tutora, desde que ela não se transforme em autora", adverte Celedônio.



