Normas de gênero são aprendidas desde cedo, nas brincadeiras, na forma como crianças aprendem a expressar emoções e até na divisão das tarefas dentro de casa. Para Ana Nery, especialista em Gênero e Inclusão da Plan International Brasil, educar meninos para o respeito e o cuidado exige criar outros referenciais de masculinidade, baseados em empatia, diálogo, escuta e corresponsabilidade.
Este é o quarto post da Série Especial Ser Menino, realizada em parceria com a Plan International Brasil. Ao longo de cinco entrevistas, a série discute masculinidades, violência de gênero, relações entre meninos e meninas e os caminhos possíveis para construir relações mais saudáveis, seguras e equitativas desde a infância.
Nesta entrevista, Ana fala sobre a importância de espaços seguros de escuta, do envolvimento das famílias, escolas e políticas públicas e das metodologias desenvolvidas pela Plan International para trabalhar essas questões com adolescentes e jovens em diferentes estados brasileiros. Ela também explica como meninos podem atuar como multiplicadores dessas transformações em seus territórios, escolas e grupos de convivência, especialmente por meio da chamada educação entre pares, em que adolescentes dialogam com outros adolescentes sobre cuidado, respeito, emoções, prevenção das violências e igualdade de gênero.
"Quando temos modelos positivos na sociedade, diálogo constante e apoio para questionar normas rígidas, meninos e homens podem encontrar um campo seguro e propício para se tornar aliados na promoção da equidade de gênero", afirma.
Conscientização desde a infância
A conscientização entre crianças e adolescentes acontece quando a educação para a equidade de gênero e raça começa na infância e segue de forma contínua, em espaços de vivência e socialização, como na família, escola, comunidade e também no ambiente digital.
O trabalho de cuidado é entendido como o conjunto das atividades e as relações estabelecidas para satisfazer as necessidades materiais e emocionais das pessoas. O termo tem origem nos anos 70 com a discussão sobre capitalismo e divisão sexual do trabalho. Na América Latina e Caribe, as autoras Karina Batthyány e Sol Scavino entendem a economia de cuidado como um exercício de responsabilidade em prestar bens e serviços para a população entre o Estado, as empresas, a sociedade e a família. São estes serviços que geram bem-estar, crescimento e reprodução da sociedade, e que são prestados no âmbito privado e, em particular, pelas mulheres.
As evidências trabalhadas pela Plan demonstram que normas de gênero são aprendidas na infância, nas brincadeiras, nos brinquedos, nas expectativas sobre emoções e responsabilidades. Por isso, para prevenir violências, é necessário criar e/ou proporcionar espaços educativos seguros, participativos e adequados à idade, com atenção à diversidade e que incentivem o diálogo sobre sentimentos, respeito, consentimento e resolução não violenta de conflitos.
Educar meninos para o respeito e o cuidado para além de "corrigir comportamentos isolados" significa oferecer outros referenciais de ser. Isso inclui estimular a empatia, a expressão emocional, o cuidado com as pessoas e a corresponsabilidade nas tarefas domésticas e de cuidado. O estudo "Escolhas Reais, Vidas Reais: A Divisão Desigual do Trabalho de Cuidados e seu Impacto sobre as Meninas" (2024) da Plan International, realizado em 9 países do mundo, incluindo o Brasil, mostra que, quando meninos não são envolvidos desde cedo no trabalho do cuidado, a sobrecarga recai sobre as meninas, limitando suas oportunidades.
Por fim, é fundamental que esse processo envolva pessoas adultas e instituições. Educar meninos para o respeito exige exemplos coerentes no ambiente familiar, escolar, nas lideranças e políticas públicas, além de enfrentamento ativo a discursos misóginos e violentos, inclusive no ambiente online.
Espaços seguros de escuta
Os espaços seguros de escuta são fundamentais porque permitem que crianças, adolescentes e jovens expressem seus sentimentos, tirem dúvidas e compartilhem vivências com menos medo de julgamento, punição ou ridicularização. Para meninas, esses espaços são especialmente importantes porque permitem, na maioria dos casos, romper o silêncio em torno de violências, discriminações e sobrecargas naturalizadas, como o trabalho doméstico e de cuidado. Para esse público, especialmente em contextos de desigualdade de gênero, os espaços seguros favorecem o reconhecimento de violências (como assédio, abuso e controle), fortalecem a autonomia emocional, a autoestima e a capacidade de pedir ajuda, reduzem o isolamento e a culpabilização individual, mecanismos que se conectam no processo de socialização feminina.
O que observamos nos projetos da Plan mostra que muitas experiências de violência e desigualdade só emergem quando há confiança, acolhimento e escuta qualificada, condição fundamental para proteção, prevenção e fortalecimento da autonomia. Para os meninos, esses espaços cumprem um papel igualmente estratégico. Estudos sobre socialização das masculinidades indicam que espaços seguros, onde meninos podem falar sem serem ridicularizados, contribuem para maior consciência emocional, redução da adesão a padrões de masculinidade rígidos e diminuição de comportamentos violentos ao longo do tempo.
Espaços seguros de escuta permitem que eles falem sobre medos, inseguranças, pressões e conflitos internos, favorecendo a abertura para um melhor desenvolvimento emocional. Isso conta muito na prevenção das violências e amplia as possibilidades de ser a partir de uma lógica mais equitativa.
Meninos como multiplicadores
Na Plan trabalhamos com uma metodologia que consiste numa técnica que proporciona um diálogo direto entre grupos que se identificam por determinadas características. Isso é feito, por exemplo, entre adolescentes e jovens que participam das atividades formadoras, através de linguagens e recursos que contribuem para a interação entre grupos.
Adolescentes e jovens têm mais facilidade de comunicação entre si, pois a linguagem e interação acabam sendo mais abertas e facilitam a discussão e compreensão dos temas. As ações de educação de pares incentivam o protagonismo juvenil e adolescente, valorizando os saberes que esses grupos já trazem de suas experiências vividas. Por meio de ações de multiplicação entre pares, adolescentes e jovens conseguem colocar suas questões, ter mais acesso ao entendimento mútuo e alcançar questões que nem sempre uma pessoa adulta poderia acessar.
Essa mudança é potente porque acontece entre pares, onde normas sociais são frequentemente reforçadas. Na prática, a multiplicação ocorre quando os meninos podem vivenciar o cuidado e o respeito como valores, e não apenas como discursos.
Para que meninos sejam multiplicadores, é essencial que tenham apoio institucional e reconhecimento social. Escolas, projetos sociais e espaços comunitários precisam legitimar esses meninos como aliados, oferecendo formação contínua, escuta e segurança para que possam agir de forma mais autônoma e sem julgamentos. Para a Plan, meninos que se tornam multiplicadores ajudam a transformar pequenas realidades cotidianas, ampliando o alcance das mudanças em direção à equidade de gênero, ao cuidado compartilhado e à prevenção das violências.



