O Ceará e o Mississippi, nos Estados Unidos, têm algo em comum: ambos investiram pesadamente em alfabetização e se tornaram referência em seus países, mesmo estando entre as regiões mais pobres. A comparação foi feita pela diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais (Ceipe) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Claudia Costin, em entrevista ao Estadão.
Analfabetismo no Brasil cai abaixo de 5% pela primeira vez
Pela primeira vez, a porcentagem de analfabetos no Brasil ficou abaixo dos 5%, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) da Educação, do IBGE, divulgada em 19 de julho. Apesar do avanço, o país ainda tem 8,1 milhões de jovens de 15 a 29 anos que não estudam nem trabalham (os chamados 'nem-nem'), o equivalente a 17,5% dessa faixa etária. Além disso, 7,9 milhões de jovens de 14 a 29 anos não completaram o ensino médio ou nunca frequentaram a escola.
Desafios persistentes: analfabetismo concentrado em idosos e desigualdades regionais
Claudia Costin avalia que a queda do analfabetismo é positiva, mas o problema está longe de ser resolvido. 'A taxa de analfabetismo absoluta vem diminuindo de maneira muito importante, sobretudo na faixa das pessoas com até 39 anos. O analfabetismo está concentrado no grupo de 60 anos ou mais', afirmou. Ela destacou que o analfabetismo permanece desigual, mais presente entre negros e nas regiões Norte e Nordeste. 'Existe um sistema bem estabelecido de educação de adultos, mas é raro que a população mais idosa procure', completou.
Queda na evasão escolar e o papel do programa Pé-de-Meia
A evasão escolar caiu 8% nos últimos dois anos, o que Costin atribui, em parte, ao programa Pé-de-Meia. 'Sim, eu diria que é um sinal de que provavelmente o Pé-de-Meia está funcionando e incentivando os jovens a concluírem o estudo e prestarem o Enem. Criou-se uma cultura de que sem o ensino médio, a pessoa só vai conseguir um trabalho precarizado', disse. Ela também mencionou o aumento de escolas em tempo integral como fator positivo, pois oferece orientação de estudos e reduz a repetência.
O gargalo das creches e a importância da pré-escola
Sobre a falta de vagas em creches para bebês de 0 a 3 anos, Costin apontou que o transporte escolar não é adequado para crianças tão pequenas e que o ideal é que a creche não seja muito distante. Ela defendeu que, até os 6 meses, a criança deve estar em casa para amamentação, sugerindo a extensão da licença maternidade e paternidade. Já para a faixa de 4 a 5 anos, a pré-escola é essencial para o desenvolvimento socioemocional e a pré-alfabetização. 'Estávamos muito perto da universalização nessa faixa etária, mas caímos durante a pandemia e ainda não recuperamos plenamente', alertou.
Lições do Ceará e do Mississippi
Costin destacou que o Ceará, apesar de ser um dos estados mais pobres do Brasil, conseguiu avanços significativos em alfabetização com políticas focadas e gestão eficiente. Da mesma forma, o Mississippi, um dos estados mais pobres dos EUA, implementou programas de alfabetização que o tornaram referência nacional. 'Ambos mostram que é possível superar a pobreza com investimento em educação de qualidade desde os primeiros anos', concluiu.



