Ando me debatendo, às turras, com partes do meu passado. Até pouco tempo, achava que tinha tudo, ou quase tudo, resolvido. Há quase 30 anos tive uma mudança de vida tão drástica que foi como se eu tivesse mudado de país, de cultura. Assim, durante muitos anos, vários personagens da minha vida pregressa desapareceram do meu horizonte, me deixando com a sensação de que o passado não me afetava mais.
O reencontro com a mágoa
Não que eu fizesse essa associação. Eu, na verdade, achava que tinha tido uma vida inteira para curar a dor e, por isso, estava imune, madura, com a ‘casca grossa’, como eu dizia. Segundo a escritora Leda Maria Martins, “toda história é sempre sua invenção”. E, na minha história, na minha invenção, o sofrimento tem alguns endereços, nomes e sobrenomes. Sei que, através das memórias desse tempo e da luta que travei, construí grande parte da Alice adulta que me tornei. Sigo com Leda: “qualquer memória é sempre um hiato no vazio”.
O corpo como palco da memória
De alguma forma, a vida me levou de volta ao tal país onde nasci, como se São Paulo, de repente, tivesse se tornado a vila que deixei e, no meu horizonte, surgissem as pessoas do meu passado para testar a tal pele grossa que eu achava ter. Nesse encontro cara a cara, reencontrei a mágoa e vi meu corpo reagir, me fazendo cair de cama por vários dias. Esse tempo me fez buscar algum alívio na literatura e, assim, conhecer o conceito de tempo espiralar formulado por Leda Maria Martins.
O tempo espiralar e a atualização do passado
Nessa espiral, “o tempo faz curvas onde passado, presente e futuro coexistem simultaneamente”. “O passado não como algo superado, mas se fazendo presente e acumulando saberes que impulsionam o futuro”, diz a sábia escritora. A ideia é que “o corpo, em performance, atualize o passado no agora”. Foi isso. Meu corpo, nesse encontro entre passado e presente, performou, reescreveu. Atualizei a Alice de 26 anos. Atualizei também personagens daquela época. Um espaço de direito foi restaurado.



