Uberaba, em Minas Gerais, registrou uma queda drástica de 73% na participação de adolescentes de 16 e 17 anos no eleitorado desde 1994, enquanto o número total de eleitores dobrou no mesmo período, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Em 1994, havia 5.279 eleitores com menos de 18 anos, o que representava 3,3% do eleitorado e 2,5% da população. Para as eleições de 2026, esse número caiu para 1.420, ou 0,6% do eleitorado e 0,4% da população.
Cenário contrastante: eleitorado cresce, jovens encolhem
Enquanto o eleitorado total de Uberaba dobrou nos últimos 32 anos, a presença de adolescentes nas urnas encolheu de forma expressiva. Os dados do TSE, que disponibiliza estatísticas por faixa etária desde 1994, mostram que essa redução ocorre em meio a um crescimento geral do número de votantes na cidade. As estimativas populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foram usadas como base para as comparações.
Essa disparidade chama a atenção de especialistas, que veem um desafio crescente em engajar os jovens no processo eleitoral. A socióloga e cientista política Alecilda Oliveira, que leciona sociologia para adolescentes do Ensino Médio, observa que muitos alunos não compreendem a dinâmica dos cargos eletivos. "Vejo uma grande confusão em saber o que os representantes políticos fazem e, às vezes, até uma rejeição dos adolescentes em falar sobre a política", afirma.
Perfil educacional dos adolescentes eleitores
Quase 95% dos adolescentes eleitores em Uberaba chegaram ao Ensino Médio, conforme dados do TSE. Desses, 92,7% ainda estão cursando essa etapa e 2% já a completaram. Apenas 0,14% desse grupo é analfabeto, e 0,5% já ingressaram no Ensino Superior. Esses números indicam que a baixa participação não está associada à falta de acesso à educação, mas a outros fatores.
Os dados foram divulgados nesta semana, a dois meses do primeiro turno das Eleições 2026, como parte de uma série de reportagens do g1 sobre o perfil do eleitorado de Uberaba, que também aborda o envelhecimento dos eleitores, o peso do voto feminino e o impacto das abstenções.
Desinteresse ou descrença? Especialistas analisam causas
Para Alecilda Oliveira, a redução da participação adolescente não pode ser explicada apenas por falta de interesse. "Os jovens tendem a perguntar qual mudança direta aquilo vai provocar na vida deles. Quando não conseguem enxergar essa transformação, acabam entendendo que participar da eleição não é algo importante", explica. Ela também aponta que muitos eleitores não conhecem a dinâmica dos três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Já o professor Moacir de Freitas Júnior, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), lembra que a juventude sempre foi protagonista em momentos-chave da história do Brasil, como na campanha "O Petróleo é Nosso", na luta contra a ditadura militar, na redemocratização, nos caras-pintadas e nos movimentos de 2013. "Em todos os momentos políticos chave da história do Brasil a juventude se fez presente e foi a principal força", destaca.
Engajamento coletivo versus política institucional
O historiador político Fernando Perlatto, diretor do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), vê uma explicação para a queda: o desinteresse pela política institucional, mas não pela política em si. "A gente percebe o engajamento dos jovens, muitas vezes nas redes sociais, em coletivos, em diversos espaços. Inclusive, não apenas à esquerda, mas também o engajamento conservador", afirma. Ele observa que esse engajamento nem sempre se converte em participação eleitoral.
As redes sociais também entram na equação. Alecilda Oliveira ressalta que os adolescentes estão sujeitos à desinformação e à influência dos algoritmos, que reforçam conteúdos alinhados às preferências dos usuários. Moacir de Freitas Júnior acrescenta: "Isso afeta mais diretamente os jovens, não só porque são mais suscetíveis, mas porque se informam muito mais pelas redes sociais. A polarização política também não ajuda a atrair os jovens".
Impacto na democracia
O afastamento dos jovens da política, segundo Moacir de Freitas Júnior, enfraquece a democracia. "Se não renovarmos os compromissos democráticos, logo estaremos nos perguntando por que precisamos da democracia. E aí será tarde", alerta. Ele reforça que a democracia é uma construção constante e que precisa de construtores o tempo todo.
Os especialistas concordam que é essencial formar cidadãos conscientes, e a escola tem papel fundamental nesse processo. "A gente precisa formar cidadãos que estejam mais conscientizados com o que é a participação política", conclui Alecilda Oliveira.



