Paulista de hoje: mais velho, mais diverso e com menos filhos
Paulista de hoje: mais velho, mais diverso e com menos filhos

O novo perfil do eleitorado paulista

São Paulo concentra mais de 34 milhões de eleitores, 22% do total nacional, com 53% de mulheres. Os dados do TSE mostram um colégio eleitoral decisivo. Mas a série especial do SP1, em parceria com o g1, a partir desta segunda-feira (3), mostra que o perfil dessa população mudou profundamente desde a redemocratização. Com base no Censo do IBGE, as reportagens analisam os reflexos na saúde, na educação e na segurança pública.

Desde as eleições diretas, o estado ganhou mais de 14 milhões de habitantes e hoje tem 46 milhões de moradores. A transformação, porém, não é apenas demográfica: os paulistas estão mais velhos, mais diversos e vivendo em lares menores.

Envelhecimento acelerado

No início da década de 1990, quatro em cada dez paulistas eram crianças ou adolescentes. Hoje, esse grupo representa 24% da população. Os idosos, que eram 7% em 1991, passaram a 17%. Em números absolutos, a população com 60 anos ou mais triplicou, saltando de 2,4 milhões para 7,6 milhões. Pela primeira vez, crianças e idosos têm praticamente o mesmo peso no estado.

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Jefferson Mariano, analista socioeconômico do IBGE, atribui o fenômeno à combinação de queda da fecundidade e aumento da longevidade. “O aumento da longevidade em São Paulo é mais expressivo no estado do que em outras localidades do país por conta dos indicadores sociais mais favoráveis, como a cobertura de rede de esgoto. Esses indicadores que impactam na saúde pública são muito favoráveis em São Paulo e contribuíram para a longevidade”, afirma.

Famílias menores e mais lares unipessoais

O paulista também passou a ter menos filhos. Mais de 65% das mulheres paulistas com filhos têm, no máximo, dois filhos. Em 2000, quando o Censo começou a coletar esse dado, o porcentual era 54%. A proporção de mulheres com filho único subiu de 24% para 30%.

Casar mais tarde, a maior participação feminina no mercado de trabalho e o custo de criação dos filhos ajudam a explicar a queda. O efeito aparece nos domicílios: quase metade dos lares tem até dois moradores. Os lares com apenas uma pessoa passaram de 7% em 1991 para 19,2% em 2022. Já os domicílios com cinco ou mais moradores perderam participação.

Mariano destaca também a redução das “famílias conviventes”, quando dois ou mais núcleos familiares dividem o mesmo imóvel sem compartilhar rendas e despesas. “Além de ter domicílios com quatro ou cinco moradores, era comum haver dois ou três núcleos familiares vivendo na mesma casa. Isso mudou. O fato de mais pessoas morarem sozinhas também está relacionado ao aumento da longevidade associado à autonomia. As pessoas só conseguem viver sozinhas quando têm condições para isso”, diz.

Mais diversidade racial e religiosa

O estado, historicamente de maioria branca, tornou-se mais diverso. No início dos anos 1990, somente 25% dos moradores se declaravam pretos ou pardos. Trinta anos depois, o porcentual chega a 40%. Os brancos ainda são 57%, mas o crescimento da população preta e parda é evidente.

Segundo Mariano, dois fatores explicam o movimento: o letramento racial e a taxa de fecundidade maior entre mulheres pretas e pardas. “Temos um crescimento de pessoas que no passado se declaravam brancas e agora passam a se enxergar e se declarar pardas. Da mesma forma, pessoas que se declaravam pardas hoje se identificam como pretas. Houve um avanço nessa discussão na sociedade, nas universidades, nas escolas e também mudanças na legislação, especialmente nos últimos 20 anos, que contribuíram para esse aumento”, explica.

A diversidade também se reflete na religião. Em 1991, oito em cada dez paulistas se diziam católicos; em 2022, cinco em cada dez. Enquanto isso, outros grupos cresceram, segundo os Censos:

  • Evangélicos: de 6,5% para 27,3%
  • Sem religião: de 4,9% para 10,4%
  • Religiões afro-brasileiras: de 0,47% para 1,47%

Para Mariano, parte da mudança reflete como as pessoas declaram a fé. “Normalmente as pessoas se declaravam católicas sem fazer muita reflexão sobre isso. Muitas vezes eram batizadas e automaticamente se consideravam católicas. Hoje existe uma avaliação mais crítica sobre a própria religião. Por isso o dado atual tem uma qualidade superior àquele que tínhamos há 20 ou 30 anos”, diz.

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Migração e origem dos moradores

São Paulo segue como o maior receptor de migração interna do país, mas a proporção de nascidos no estado cresceu. Em 1991, 76,1% da população era natural do estado; em 2022, 79,7%. Mariano afirma que houve um “refreamento” no processo migratório, com redução do volume de pessoas que ingressam em São Paulo.

Ainda assim, milhões de moradores nasceram em outros estados. Em 2022, a Bahia liderava como estado de origem, com 1,84 milhão de baianos vivendo em São Paulo. Na sequência aparecem Minas Gerais (1,6 milhão), Paraná (1 milhão), Pernambuco (1 milhão) e Ceará (529 mil).

Políticas públicas e desafios futuros

As mudanças no perfil populacional impõem novas demandas ao estado. Para Mariano, acompanhar as transformações é essencial para orientar políticas públicas e evitar desperdício. “É importante olhar para os dados e para as evidências para desenhar políticas públicas. Quando entendemos como a população se distribui e como ela muda ao longo do tempo, conseguimos direcionar melhor os recursos para as regiões e para as necessidades de cada grupo”, afirma.

O analista do IBGE considera o envelhecimento um dos principais desafios das próximas décadas. “O Brasil enfrenta um processo de envelhecimento muito rápido, semelhante ao de países desenvolvidos, mas ainda convive com desafios sociais importantes. O grande desafio é equilibrar os recursos disponíveis. Não é possível deixar de atender crianças, jovens e a população de baixa renda para concentrar tudo na população idosa”, alerta.

Segundo ele, será preciso adaptar cidades e serviços. “O Censo mostra, por exemplo, a necessidade de ampliar a acessibilidade. As cidades e o estado precisam estar preparados para uma população cada vez mais idosa”, conclui.