O hoteleiro de visão mais estreita é obviamente contra. "Totalmente contra", costumam dizer. Mas, sejamos francos: a hotelaria brasileira precisa acabar com a escala 6×1 - até porque ela nem existe em diversos outros países e a indústria funciona ali bem, muitíssimo bem. E, na hotelaria de luxo, é ainda mais bizarro insistir nesse equívoco.
Felizmente, algumas propriedades do nicho vêm liderando o bom exemplo desde o ano passado. O Palácio Tangará, em São Paulo, foi o primeiro hotel deste segmento a adotar integralmente a escala 5×2. Depois vieram algumas pousadas de alto padrão em distintas regiões brasileiras e o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro.
Benefícios comprovados da escala 5×2
Oferecer duas folgas semanais ao staff é medida essencial para melhorar o bem-estar das equipes e, principalmente, facilitar a atração - e, mais importante ainda, a retenção - de mão de obra qualificada. Funcionários que passam a ter dois dias consecutivos de descanso têm comprovadamente a produtividade aumentada em diversos nichos. E, na hotelaria, sabemos bem, um funcionário contente é parte da receita fundamental para manter o hóspede satisfeito.
Palácio Tangará: pioneiro na transição
O belo Palácio Tangará introduziu a escala 5×2 para todo o staff ainda em outubro do ano passado, simultaneamente à contratação de mais 27 profissionais. Assim, garantiu não apenas um ambiente de trabalho mais justo como também que a excelência do padrão de serviços da casa não sofresse alterações. Mais que isso: a iniciativa, muito bem planejada, programada e gerenciada, veio acompanhada também da redução da carga horária de 44 para 42 horas semanais, sem corte salarial (reforçando: sem corte salarial), representando um atrativo ainda maior para manutenção da mão de obra altamente qualificada do hotel. Embora iniciativas de alterações parciais de escala estejam acontecendo, até agora, infelizmente, nenhum outro hotel de luxo na cidade de São Paulo passou a oferecer a escala 5×2 a 100% de seu staff.
Copacabana Palace: implementação gradual
No Rio de Janeiro, o Copacabana Palace, Belmond, ícone da hotelaria nacional, já adotou a escala 5×2 para a totalidade dos departamentos de governança, alimentos e bebidas, cozinha e hospedagem. Por enquanto, apenas o setor de segurança do hotel segue em escala 12×36. O processo de adoção da nova escala no Copa levou meses, com implementação gradual, departamento por departamento. Assim, conseguiram garantir uma adaptação mais equilibrada em todos os setores. O hotel aproveitou também esse período de obras na área da piscina para ajustar a nova escala 5×2. Com a ocupação temporariamente reduzida em razão da reforma, o revezamento da equipe aconteceu aos poucos e a gerência evitou, assim, contratação imediata e simultânea de vários profissionais extras.
Movimento pelo fim do 6×1 na hotelaria brasileira
Essas mudanças na escala de trabalho dos hotéis não é primazia do setor de luxo, não. Diversas pousadas e hotéis econômicos no Brasil também já estão aderindo - e com sucesso, de forma bem planejada - à escala 5×2. No entanto, no turismo de luxo, sempre foi muito óbvia a noção, no mundo todo, de que o serviço de excelência depende também da valorização individual e geral das pessoas. Só que, se a hospitalidade nasceu para cuidar do hóspede, essa ideia não pode ser unilateral, certo? Querer sustentar a experiência impecável do hóspede com jornadas de trabalho exaustivas para o staff, em pleno 2026, beira o amadorismo - até porque a exaustão do staff afeta diretamente a experiência do hóspede (e digo isso tanto como hóspede frequente como também como alguém que trabalha diretamente com a indústria hoteleira e tem vários amigos envolvidos no setor).
Contraste com práticas internacionais
Mas, ainda hoje, temos marcas e redes hoteleiras que, em outros países, já adotam a escala 5×2 há muito tempo. Inclusive em vizinhos sul-americanos como Chile e Argentina. No entanto, quando se trata de suas unidades em cidades brasileiras, as respectivas gerências ainda insistem em manter a escala 6×1.
Nos últimos anos, hotéis do mundo inteiro passaram a enfrentar dificuldade crescente para contratar e reter funcionários. Todo bom profissional hoje, em qualquer área, quer um equilíbrio adequado entre vida profissional e pessoal (essa meta é ainda mais pronunciada nas novas gerações, que têm bem claro o direito ao lazer é essencial para o bem-estar e a saúde mental). Não seria diferente com a hotelaria, um dos setores mais dependentes do fator humano no mundo.
Hipocrisia do discurso de bem-estar
Criar condições favoráveis e sedutoras o suficiente para reter a mão de obra qualificada, portanto, deveria ser prioridade para a maioria das propriedades. Sem falar na hipocrisia de vermos cada vez mais discursos sobre wellness, equilíbrio e saúde mental na hotelaria de luxo, que investe milhões em spas e centros de longevidade para atrair novos hóspedes, quando raramente essas mesmas propriedades aplicam tal preocupação ao bem-estar de suas próprias equipes. Será que esse setor historicamente tão obcecado pela ideia de descanso e cada vez mais focado na saúde do hóspede vai realmente continuar estruturado sobre trabalhadores cronicamente cansados? Amigo hoteleiro, estamos em 2026; já passou da hora da hotelaria brasileira acabar com escala 6×1. Inclusive pela saúde a longo prazo do seu próprio negócio.



