Um hortifrúti no bairro Jardim Águas do Paiol, em Araraquara, no interior de São Paulo, virou exemplo de comércio baseado na confiança. A loja não tem nenhum funcionário no salão: os clientes entram, escolhem os produtos, calculam o total e fazem o pagamento por conta própria. O proprietário, Cristiano Aparecido Ferreira, afirma que o índice de satisfação é de 95% e que, em meses de funcionamento, apenas uma pessoa deixou de pagar.
Um modelo diferente de quitanda
O espaço é pequeno e, na maioria das vezes, fica vazio. Mas a geladeira está sempre repleta de frutas, legumes e verduras. O cliente chega, pega o que precisa e permanece sozinho na loja, sem ninguém para cobrar. Ele mesmo confere os preços, soma os itens com a calculadora deixada no balcão e escolhe como pagar: cartão, Pix ou dinheiro vivo.
Para quem opta por dinheiro, a solução é um cofre nada convencional: uma panela antiga que pertenceu à avó de Cristiano. Ela serve para depositar as cédulas e também para pegar o troco, inclusive moedas. "Ele consegue pegar o troco dele, tem a moedinha, sem problema nenhum", detalha o comerciante. No balcão, um caderno permite que cada freguês anote suas compras, facilitando a organização do estoque para o dono.
Do cultivo ao autoatendimento
Antes de abrir o hortifrúti, Cristiano já atuava no ramo: plantava e, ao mesmo tempo, comprava legumes de fornecedores para entregar pela cidade. Apesar das entregas, ele percebeu que havia uma demanda de clientes que preferiam ir até o local. Foi então que decidiu montar o espaço com autoatendimento, eliminando a necessidade de um funcionário presente.
A decisão não foi recebida com otimismo por todos. O comerciante conta que ouviu muitas críticas. "Bastante gente falou que não ia dar certo, mas eu acredito. Eu acredito nas pessoas, eu acredito que vai dar certo", diz. Ele reforça que o resultado surpreendeu: "Está dando certo e um resultado 95% satisfatório."
Clientes parceiros do negócio
A aposentada Tereza Rodrigues dos Santos é uma das consumidoras que aceitaram a proposta. "Eu acho que se você dá um voto de confiança, eu vou ter que ser honesta com você", afirma. Essa relação de parceria se estende para além da compra: a quitanda oferece mudas de chuchu como cortesia, incentivando os clientes a produzirem em casa.
Segurança dentro da confiança
Apesar de acreditar nas pessoas, Cristiano instalou câmeras de segurança no estabelecimento. O monitoramento é uma garantia extra em um modelo que depende da boa-fé alheia. Ele assegura, no entanto, que a experiência tem sido tranquila. "Não tenho nenhuma dificuldade, não tenho nenhuma reclamação", ressalta.
Filosofia de vida e propósito profissional
Mais do que um ponto comercial, o hortifrúti sem funcionários reflete a visão de Cristiano sobre as relações humanas. "Se a gente não confiar nas pessoas, eu acredito que as coisas vão ficar muito difíceis. Então eu acredito nas pessoas e vou sempre acreditar", declara. Ele conclui: "Meu objetivo é sempre agradar, fazer o bem, não é só ganhar dinheiro. É sentir prazer no que a gente faz, mostrar um pouco do meu trabalho, que é muito satisfatório para mim."
Exemplo que inspira? Ainda é cedo para saber
O caso de Araraquara levanta um debate sobre os limites da confiança no comércio. Por enquanto, a experiência funciona e os números mostram que, ao menos nesse bairro, a honestidade compensa. O voto de confiança dado por Cristiano aos clientes parece ter gerado uma rede de reciprocidade — e, segundo ele, os resultados falam por si.



