Levantamento inédito da Prefeitura de São Paulo, realizado a pedido do Paladar, revela que a capital paulista tem hoje 953 feiras livres em funcionamento, um crescimento de 7,5% em relação a 2019, quando havia 887 feiras registradas. O aumento contraria o senso comum de que as feiras estariam em declínio diante do avanço do delivery, minimercados e grandes redes internacionais.
Três fatores explicam o crescimento
Segundo a Secretaria Municipal das Subprefeituras, o crescimento é explicado por três fatores principais: as feiras continuam fundamentais para o abastecimento das periferias; seguem como importantes fornecedoras da gastronomia paulistana — chefs como Alex Atala e Telma Shimizu já declararam fazer compras nesses espaços —; e passaram a diversificar seus formatos para atender às novas demandas do público.
No último ano, por exemplo, 23 feiras passaram a funcionar no período noturno, voltadas principalmente aos trabalhadores que chegam em casa depois do expediente. Outras dez são oficialmente classificadas como feiras 100% orgânicas.
História e tradição
As feiras livres foram institucionalizadas em São Paulo pelo então prefeito Washington Luís, em 1914. Passados 111 anos, continuam fazendo parte da paisagem da cidade. Nos cadastros municipais, a mais antiga ainda em funcionamento data de 1938 e fica na região do Brás. A mais nova começou a operar em 2025, no Itaim Bibi.
A reportagem visitou as duas. A veterana revelou-se movimentada, diversa e cheia de identidade, funcionando como ponto de encontro e acolhimento para a comunidade de migrantes bolivianos que vive e trabalha na região. Já a caçula, com apenas cinco barracas, resiste em um dos bairros mais corporativos da cidade, cercada por lojas, escritórios e edifícios espelhados.
Economia das feiras
Segundo o secretário executivo de Segurança Alimentar e Nutricional e de Abastecimento da Prefeitura de São Paulo (SESANA), Vitor Arruda, as feiras seguem sendo essenciais para o abastecimento da cidade, garantindo o acesso da população a alimentos frescos e saudáveis. Outro ponto destacado por Arruda é a aproximação entre produtores e consumidores. “As feiras cumprem um papel muito importante ao trazer os produtores rurais do entorno da cidade de São Paulo para venderem esses produtos aqui no território”, afirma.
A SESANA, em um post de 2025, estimou que as feiras livres movimentem cerca de R$ 2 bilhões por ano, reúnam aproximadamente 12 mil feirantes, recebam uma média de mil pessoas por edição e gerem cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos. Frutas, legumes, verduras, além das barracas de pastel e de caldo de cana, lideram as vendas. Um balanço realizado em 2025 aponta que cada feira comercializa entre 700 e 1.000 pastéis por dia.
Feira mais antiga: tradição e comunidade no Brás
A feira da Rua Firminiano Pinto, no Brás, é reconhecida como a mais antiga ainda em funcionamento em São Paulo. Criada em 1938, ela carrega décadas de história e representa a permanência de uma tradição que atravessou gerações de paulistanos.
Basta caminhar pela feira e conversar com os comerciantes para perceber que as relações vão muito além do trabalho. Entre risadas e brincadeiras, duas figuras logo são apontadas como parte da alma do lugar: Benedito Aparecido Miguel da Costa, de 74 anos, e Adilson Aparecido de Lima, de 68.
Benedito chegou à feira por um caminho diferente da maioria, que costuma assumir os pontos por herança familiar. Sem pais feirantes, acabou sendo praticamente adotado pela comunidade. Começou aos 14 anos vendendo esterco para hortas no Tatuapé. Comprava o fertilizante no Parque Novo Mundo, na zona norte, e o revendia aos produtores. Aos 15 anos entrou definitivamente para a feira, já vendendo o produto final: tomates. Fez dali sua segunda casa, ampliou a variedade de mercadorias e, desde 1967, mantém um ponto na Firminiano Pinto, tornando-se uma referência entre os colegas.
Adilson também começou inesperadamente na profissão. Pegou no batente aos 15 anos, como metalúrgico. Após ser demitido, foi convencido pela irmã a começar a ajudar seu marido em feiras pela cidade. “Ao ir na primeira feira, que aconteceu em um domingo, eu ganhei em um dia mais do que ganhava em um mês no meu antigo serviço”, comenta. E foi desde então, em 1974, que o feirante nunca mais abandonou sua barraca que vende laranjas.
Entre as barracas dos dois veteranos está Felipe Santos, de 28 anos. O primeiro contato com a feira aconteceu ainda na infância. Aos 8 anos, começou ajudando no transporte de caixas e na organização das barracas. Pouco tempo depois, foi outro dos “adotados” pela comunidade de feirantes — vínculo que permanece até hoje. Vinte anos depois, Felipe diz que a melhor parte do trabalho continua sendo o relacionamento com os clientes e as amizades construídas ao longo do caminho.
Em frente à sua barraca, uma pequena mesa reúne uma grande diversidade de temperos e produtos típicos da Bolívia. Ali trabalha Lídia Chambi, nascida em La Paz e moradora do Brasil. Sempre atenciosa, ela explica que boa parte da clientela é formada por bolivianos que vivem na região do Brás.
Já a barraca de Isabel de Oliveira Silva chama atenção pelo comando exclusivamente feminino. Filha de uma família de feirantes, Isabel percorre São Paulo ao lado das irmãs e sobrinhas vendendo frutas e legumes. Moradora de Ferraz de Vasconcelos, ela começa o dia ainda de madrugada buscando os produtos e só encerra o expediente no fim da tarde, quando desmonta a barraca. Sempre sorrindo, divide o trabalho com as sobrinhas e ainda vende peças de artesanato produzidas nas horas vagas.
Feira mais nova: cinco barracas e recomeço no Itaim Bibi
A quase 13 quilômetros da feira do Brás está a caçula da cidade, no Itaim Bibi. Inaugurada no fim de 2025, ela ocupa apenas um terço da rua e reúne cinco barracas: uma de verduras, uma de frutas, uma de ovos, uma de pastel e uma de caldo de cana.
Quem administra uma delas é Edna Farias, de 50 anos. Baiana, ela diz que nasceu com o comércio no sangue. Filha de comerciantes, mudou-se para São Paulo depois que a família perdeu os negócios no Nordeste. Passou por diferentes empregos até descobrir sua vocação nas feiras livres. Para ela, a fidelidade dos clientes não se explica apenas pela qualidade dos alimentos, mas pela relação de confiança construída no contato direto: olhar nos olhos, pegar o produto na mão, experimentar um pedaço e conhecer a história de quem planta e vende.
O movimento ainda é discreto, mas cresce aos poucos. Sacolas retornáveis, carrinhos e ecobags começam a ocupar a rua.
Em São Paulo, todo dia é dia de feira. Elas resistem. E, junto com elas, permanecem vivas as histórias de quem trabalha para alimentar a cidade.



