Dados do Banco Central revelam que 30% das famílias brasileiras estão endividadas, e a desinformação sobre as condições de crédito é apontada como um dos principais fatores que agravam o superendividamento no país. A falta de clareza sobre taxas de juros, prazos e encargos leva muitos consumidores a assumirem dívidas que não conseguem pagar.
Crescimento do endividamento e falta de transparência
De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), o número de famílias endividadas atingiu 78,3% em maio de 2026, o maior patamar da série histórica. Especialistas apontam que a oferta de crédito fácil, combinada com informações incompletas ou enganosas, tem contribuído para esse cenário.
“Muitas instituições financeiras não explicam claramente os juros compostos e as multas por atraso. O consumidor vê apenas a parcela inicial e não calcula o custo total do crédito”, afirma Maria da Silva, economista do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Impactos na economia e nas famílias
O superendividamento não afeta apenas as finanças pessoais, mas também a economia como um todo. Com menos dinheiro disponível para consumo, o comércio sente os efeitos da retração. Além disso, o estresse financeiro impacta a saúde mental dos brasileiros. Uma pesquisa do Datafolha mostrou que 65% dos endividados relatam ansiedade ou depressão relacionadas às dívidas.
“A falta de educação financeira é um problema estrutural. As pessoas não aprendem a planejar orçamento ou a comparar ofertas de crédito. Isso as torna vulneráveis a práticas abusivas”, complementa João Santos, professor de finanças da FGV.
Medidas de combate e regulação
O governo federal anunciou um pacote de medidas para combater o superendividamento, incluindo a obrigatoriedade de contratos de crédito com linguagem simples e destaque para taxas efetivas. A proposta também prevê a criação de um cadastro positivo de consumidores, que permitirá que bons pagadores tenham acesso a condições mais vantajosas.
O Projeto de Lei 1.234/2026, em tramitação no Congresso, propõe que as instituições financeiras sejam obrigadas a fornecer uma simulação do custo total do crédito antes da contratação. A medida é vista como um passo importante para aumentar a transparência e reduzir a assimetria de informações.
Educação financeira como solução de longo prazo
Especialistas defendem que a educação financeira deve ser incluída no currículo escolar desde o ensino fundamental. Atualmente, apenas 20% das escolas brasileiras oferecem algum tipo de educação financeira, segundo o Ministério da Educação. Iniciativas privadas, como cursos gratuitos online e aplicativos de controle financeiro, têm ganhado popularidade, mas ainda são insuficientes para alcançar a população de baixa renda.
“A mudança de comportamento é lenta, mas essencial. Sem conhecimento básico sobre juros, inflação e planejamento, o ciclo de endividamento se perpetua”, alerta Maria da Silva.



