Aluguel no Rio dispara com queda de 31,8% na oferta e alta dos juros
Aluguel no Rio dispara com queda de 31,8% na oferta

Quem procura um imóvel para alugar no Rio de Janeiro enfrenta um cenário cada vez mais difícil: menos opções disponíveis, preços mais altos e concorrência maior. Dados do Sindicato da Habitação do Rio (Secovi Rio) apontam que a oferta de imóveis para locação tradicional caiu 31,8% entre 2023 e 2026. A combinação entre redução da oferta, crescimento das locações por temporada e juros elevados, que dificultam a compra da casa própria, tem impulsionado o mercado de aluguel em praticamente toda a cidade.

Morador relata dificuldade para encontrar imóvel

O produtor cultural Gustavo Canella vive essa realidade. Há seis anos, ele vem mudando de bairro para manter o aluguel dentro do orçamento. Já morou na Zona Sul, passou pelo Centro e hoje vive na região de Vila Isabel. Agora, procura um novo apartamento na Tijuca, mas a busca tem sido frustrante. "É desesperador procurar casa. Você não acha imóvel para longa temporada, só para fim de semana, mobiliado e com um valor lá em cima", diz. Segundo ele, são meses procurando com poucas opções e valores muito acima do esperado. Muitos anúncios em plataformas são destinados apenas à locação de curta temporada, reduzindo ainda mais a oferta para contratos de longo prazo.

Redução da oferta pressiona preços

Para o vice-presidente do Secovi Rio, Leonardo Schneider, a redução da oferta ajuda a explicar a valorização dos aluguéis. Menos imóveis disponíveis significam maior disputa pelos contratos, pressionando os preços para novos inquilinos. Nos contratos em vigor, os reajustes seguem os índices previstos.

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Turismo impulsiona locações de curta temporada

O recorde de visitantes registrado pelo Rio em 2025 também contribuiu. Segundo a Prefeitura, a cidade recebeu 10,5 milhões de turistas brasileiros e 2,1 milhões de estrangeiros. O presidente da Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi-RJ), Leonardo Mesquita, afirma que o aumento do fluxo turístico, aliado à retomada do movimento no Aeroporto Internacional do Galeão, incentivou proprietários a migrarem imóveis para plataformas de aluguel de curta temporada. "A locação por curta temporada acaba retirando imóveis do mercado tradicional. Com baixa oferta, normalmente há aumento dos valores dos aluguéis", explica. Esse fenômeno é mais evidente na Zona Sul, onde a demanda turística é maior.

Leblon lidera ranking dos aluguéis mais caros

Dados do Data Secovi mostram que o Leblon continua sendo o bairro com o metro quadrado de aluguel mais caro: R$ 129,10. Em seguida aparecem Ipanema (R$ 124,97) e Lagoa (R$ 89,64). Entre os dez bairros com maior valor de aluguel, oito ficam na Zona Sul. Barra da Tijuca e Centro completam o ranking. A pressão não está restrita à região: bairros da Zona Norte e Zona Oeste, como Tijuca, Méier, Vila Isabel, Taquara e Santa Cruz, também registram forte valorização.

Centro lidera alta percentual nos últimos 12 meses

Quando a comparação é feita pelo percentual de aumento nos últimos 12 meses, o Centro lidera, com valorização de 34,9%. Na sequência aparecem Jardim Botânico (31,7%), Lagoa (26,1%), Botafogo (21,9%) e Vila Isabel (18,5%). Entre os dez bairros com maior alta, há seis da Zona Sul, além de Barra da Tijuca, Taquara, Centro e Vila Isabel.

Juros altos adiam compra da casa própria

Especialistas apontam que a taxa básica de juros também exerce forte influência. Com financiamentos mais caros, muitas famílias desistem da compra e permanecem no mercado de aluguel. O aumento da demanda, sem crescimento equivalente da oferta, pressiona ainda mais os preços. Segundo o presidente do Creci-RJ, Wilson Martins, o impacto da Selic vai além da Zona Sul e ajuda a explicar a valorização em diversas regiões. Para ele, "morar não é possível adiar", e quem não consegue comprar recorre à locação.

Aluguel sobe mais de três vezes o ritmo da venda

Levantamento do índice FipeZAP mostra que, no acumulado dos últimos três anos, os aluguéis cresceram 38,09%, enquanto os preços de venda dos imóveis avançaram apenas 11,34%. Esse descompasso reflete a combinação entre juros elevados, menor acesso ao crédito imobiliário e redução da oferta de imóveis para locação.

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Mudanças no comportamento dos brasileiros

Além dos fatores econômicos, especialistas apontam mudanças no comportamento: flexibilidade para mudar de cidade ou bairro, interesse em morar em regiões onde a compra é inviável, aumento da expectativa de vida e preferência por investimentos financeiros em vez da aquisição de imóveis. Segundo dados do IBGE, a parcela de brasileiros que vive em imóveis alugados passou de 18,4% em 2016 para 23,8% em 2025. No Rio de Janeiro, entidades do setor estimam que essa participação já esteja próxima de 28%.

Perspectivas para o mercado

Para o mercado imobiliário, a tendência é que a pressão sobre os preços continue enquanto a oferta de imóveis para locação tradicional permanecer reduzida e os juros seguirem elevados.